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ARTIGO
AUTOGIRO
Como é a vida na faixa
Colunista narra a aventura de usar o novo espaço para motos da avenida Sumaré
por LUÍS PEREZ

DivulgaçãoNo início da semana, peguei minha fiel companheira, uma Honda C100 Biz, e fui experimentar a novíssima faixa exclusiva para motos da avenida Sumaré (zona oeste de São Paulo). Para minha surpresa quase todos os motociclistas faziam uso dela – pelo menos foi o que constatei na tarde de segunda-feira (18), dia de sua inauguração. Com as novas faixas (uma no sentido Pinheiros e outra no sentido centro), que ficam junto ao canteiro central e medem 2 metros de largura, o motociclista deixa de trafegar entre os automóveis ou, como seria o mais civilizado, na mesma faixa em que eles. Os veículos de quatro rodas perderam espaço na largura – suas faixas que tinham de 3 m a 3,5 m passaram a 2,50 m a 2,80 m –, mas teoricamente cabe a mesma quantidade de carros na via.

Como motociclista eventual, aprovei a idéia. Motoboys com quem conversei, também. “Bem diferente da faixa da Rebouças, que não é exclusiva, mas preferencial para motos. Lá ninguém respeita, não tem condições”, disse um deles. Batizada de “faixa cidadã” (sem que ficasse claro o que significa para quem a vê pela primeira vez), a da Rebouças não teve alteração nenhuma na largura e é marcada com losangos verdes. Aí, na opinião deste motorrepórter, não tem nada a ver mesmo. É pensar que, de uma hora para outra, viramos a Suíça, e os condutores, tanto de carro quanto de motos, vão respeitá-la em um passe de mágica.

Fez parte do pacote de mudanças na Sumaré a diminuição do limite máximo de velocidade de 70 km/h para 60 km/h, tanto para os automóveis quanto para as motos. De propósito, em meu teste, mantive a moto a 60 km/h. Quase todos os motociclistas colavam na traseira da minha moto, a ultrapassavam (pela direita, que era onde havia espaço) e ainda tratavam de olhar feio em meus olhos, como que reprovando a baixa velocidade (era o limite estabelecido, repito!).

Tive de interromper o “teste” a determinada altura porque vi uma confusão. Era um atropelamento, que registrei em Interpress Motor naquele dia mesmo (leia aqui). Nada tira da minha cabeça que, regulamentações à parte, o problema dos acidentes é em parte da peça atrás do guidão e em parte do próprio pedestre (uma das atropeladas atravessou fora da faixa; a apenas 100 m dali havia uma).

Naquele mesmo dia vi publicada em um jornal a carta do colega Bob Sharp, jornalista especializado em automóveis, que é contra a faixa de motos. Nela dizia que uma faixa exclusiva só se aplica em dois casos: para aumentar a fluidez dos ônibus, no interesse coletivo, ou proteger veículos frágeis e lentos, como as bicicletas. “A alegação de proteger motociclistas não tem substância, pois motos de cilindrada igual ou superior a 125 cm³ trafegam sem dificuldade na corrente de tráfego urbana, cuja velocidade máxima é de 90 km/h.”

Concordo em parte (antes que digam que meu esporte preferido é discordar dele, algo que já fiz em várias ocasiões). Mas acho que certas medidas têm de levar em conta o fator “cultural” – o que no caso infelizmente significa falta de preparo. Eu, como Bob, sou contra a premissa de que excesso de velocidade é “a” causa dos acidentes. Do contrário, não haveria estradas alemãs sem limite.

Problema é que nossas autoridades (inclusive e sobretudo as de trânsito) às vezes querem aplicar supostas soluções que não convêm, como a antiga proibição de aparelhos de navegação que tenham tela com imagem no painel. Será que falta muito para alguém notar que estradas alemãs não têm limites de velocidade e assim decretar o fim dos limites no Brasil, sem antes verificar condições das estradas, conservação dos automóveis e educação dos motoristas?

Certa vez, à beira de uma estrada entre a França e a Suíça, parei em um restaurante que servia vinho no almoço. Só que, para consumi-lo, o motorista era obrigado a ingerir determinada Luís Perez/Interpress Motorquantidade de alimentos quentes – como eu ia comer apenas salada, era impedido de comprar a garrafinha de vinho. Aí vem alguém e diz: “Olha, o consumo de vinho na Europa é liberado!”.

Ou seja, não adianta aplicar supostas soluções vindas de fora baseadas em informações pela metade sem levar em conta a (falta de) educação de quem conduz veículos sobre rodas no Brasil. Nem soluções radicais, como proibir o trânsito no entorno da lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, que foi palco de vários acidentes – no último deles morreram cinco jovens que saíam de uma casa noturna. Não duvido que falte pouco para aterrarem a referida lagoa sob o pretexto de prevenir acidentes.

Por falar em educação, qual não foi minha surpresa ao clicar, em algumas peças do material de sinalização espalhado pela avenida Sumaré, um cartaz de incentivo ao uso da faixa exclusiva de motos que trazia, em letras bem grandes, a frase: “Vai nessa, que é bom à bessa!” (veja foto à esquerda). Sim, com a palavra “beça” – que significa a valer ou em grande quantidade – grafada assim, com “SS”. Socorro, professor Pasquale! É isso.

Publicado em 21/09/2006

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