Bom de cobrir o Salão do Automóvel é a efervescência de um evento como esse, sobretudo quando ele acontece pertinho de um GP Brasil de Fórmula 1, categoria em muitos se julgam especialistas porque há décadas a TV Globo resolveu transmiti-la nas manhãs de domingo. Mas o assunto hoje é o salão em si – e algumas de suas histórias. Ontem uma amiga me ligou para perguntar se eu conhecia um contato quente para “descolar” ingressos para o salão. Ia passar a ela os telefones da bilheteria. Quando soube que seriam esses, pediu que deixasse pra lá. “É, credencial é só pra elite, não é?”, perguntou, irônica. Respondi: “Elite, não. É para quem vai trabalhar”. Sim, porque ela queria visitar o evento antes de todo mundo, mas certamente não gostaria de ver amanhecer da janela do escritório, como fiz algumas vezes em função do trabalho nas últimas semanas...
Mas o que dizer da Ferrari? Sim, os ferraristas desde pequenininhos (ou desde que sonharam com o campeonato ou no mínimo uma vitória de Rubens Barrichello no Brasil) teriam de esperar até quinta-feira, às 12h, para ver a foto do modelo 599 GTB enfim descoberto no estande. Tentei fotografá-la um dia antes, quando o veículo tinha uma ou outra parte descoberta, mas não deu.
Um homem entrava no carro, descobria parte da dianteira, da traseira e nada de mostrar algo significativo para que pudéssemos registrar. Entrava no carro, acionava as luzes... Por que ele tinha tanto interesse (e por que não dizer, privilégios?). Simples: o exemplar preto que será mostrado no país é o único que chegou (só no final do ano vêm outros). E ele quer comprá-lo logo que a exposição terminar. Não vê a hora de desembolsar R$ 2 milhões... Aliás, já há fila para comprar o modelo, segundo apuramos (leia aqui).
E a Chana? Sim, o primeiro carro chinês a vir para o Brasil quer reeditar a polêmica em torno do nome protagonizada anos atrás pela sul-coreana Besta. Problema é que a piada rola solta. Já corria à boca pequena até que este colunista enviou ao José Simão, que registrou o nome em sua coluna há uma semana.
Hoje mesmo ele voltou a tratar do tema. Escreveu: “E eu já disse que o sucesso do salão é uma minivan que vem da China: a Chana. `Compre uma chana zero quilômetro, leva até sete´. Já imaginou comprar uma chana zero com cheiro de novinha? Já imaginou tua mulher: `Quer dar uma volta na minha chana?´. `Vou lavar a chana da vizinha.´ Só precisa tomar cuidado pra não dar trombada com Picasso. Senão vira manchete: `Picasso entra na Chana´.”
Houve ainda leitores escrevendo para Interpress Motor a fim de fazer uma “observação pertinente”. Disse um deles: “Olha, eu acho esse nome polêmico, pois em alguns lugares do país ele se refere ao órgão sexual feminino”. Foi educado e didático. Mas 90% dos que escreveram procuraram alimentar o arsenal de trocadilhos.
Outra coisa: não adianta os importadores tentarem fazer colar o artigo masculino “o” (o carro seria “o Chana”) para tentar amenizar as coisas. O que define o gênero é a configuração da carroceria (“a” perua, “a” minivan, “o” sedã). Como a empresa traz minivans e picapes, é a Chana mesmo...
Salão antes de abrir é interessante também porque há uma disputa por jabás (as famosas lembrancinhas dadas a jornalistas), que depois de um tempo longe (juro que achei que essa prática havia acabado) tornou a surgir. Duas marcas deram de presente MP3 players (este colunista não pegou nenhum; caneta, bloquinho e acesso à internet... ah, ter notícia também é uma boa... já é suficiente).
Problema é que, no afã de ganhar um iPod (ou um genérico dele, que seja), muitos não-jornalistas acabam levando informações técnicas que seriam da imprensa embora – quem sai perdendo com isso é o leitor (que com sua audiência concedeu um mandato ao repórter que está lá a trabalho), e marcas que respeitam seu consumidor deveriam pensar nas condições de trabalho que dão a quem leva informação ao público.
Bom no salão, que já abriu à visitação, enfim, é a quantidade de atividades para não-aficionados em carros. Espaços para crianças (Citroën e Ford, por exemplo), mulheres, shows (no da Volkswagen, de longe o melhor da mostra), exposições cultural-tecnológicas (no da Chevrolet) e até debates ajudam a tornar o tema automóvel mais palatável. É isso o que a gente quer. Mostrar que o mundo da mobilidade tem a ver com cultura, com ciência e da tecnologia e com preocupação social. Muito além do que dizer que aquela caranga irada é da hora!
Sobre o 24º Salão do Automóvel
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