Momentos após Pelé ter entregue um troféu a Michael Schumacher, o competente repórter Pedro Bassan, da TV Globo, fez a tal pergunta, tão óbvia quanto inevitável: “Você é o Pelé da Fórmula 1?” O piloto (digo, ainda piloto) alemão respondeu de imediato: “Sou o Schumacher”. Um dia vou poder dizer aos meus filhos e netos, além de ficar aqui registrado para os escafandristas da internet: posso não ter visto Pelé jogar, pois tinha só dois anos quando ele encerrou a carreira. Mas vi Schumacher correr. Para ser campeão ele já jogou seu carro em cima de um adversário? Pois quem assistir a “Pelé Eterno” verá o Atleta do Século dando uma senhora cotovelada, longe dos olhares do árbitro, em um outro jogador que teimava em importuná-lo. Se não me engano, era um jogador alemão. Mau exemplo? Como ouso a citar maus exemplos de dois ídolos do esporte, embora de tempos e modalidades diferentes? Não ouso. Não quero falar sobre isso.
 Pelé homenageia Michael Schumacher pouco antes da largada da prova
Quero dizer que felizes dos que estiveram neste domingo em Interlagos, em uma corrida histórica, talvez a melhor ou mais emocionante desde o GP do Brasil de 1993, vencido por Ayrton Senna. Quem era recém nascido naquele dia hoje é adolescente. Como o tempo passa... Um ano e pouco depois veríamos o fim trágico da vida e da carreira de Senna, que bateu quando estava em primeiro lugar, perseguido por Schumacher, que venceu aquele fatídico GP em Imola, na Itália.
Não vi Senna correr. Pelo menos não em um autódromo, apenas pela TV nos incontáveis domingos acordando mais cedo do que o usual. Vi Schumacher correr neste 35º GP do Brasil e preciso dizer que a emoção na pista é completamente diferente. Eu estava no camarote da TV Globo, que tem uma visão privilegiada para o final da reta oposta, ponto de maior velocidade de todo o circuito, em que os carros de F-1 chegam a aproximadamente 300 km/h (um pouco mais é a velocidade de decolagem de um avião de grande porte).
Mais curioso foi notar que a vitória de Felipe Massa foi emocionante, tudo bem... Mas quem era mais aplaudido a cada passagem era Schumacher. Sim, mais do que Massa. Como em um tributo. Mas a palavra tributo tem um quê de concessão, de colher-de-chá, como quem diz “ok, você está se aposentando, vamos prestar uma homenagem ao conjunto da obra”. Que conjunto da obra, que nada!
Depois de largar em décimo, ter um pneu furado e terminar a corrida em quarto, juro que cheguei a pensar algo como “puxa, pena que ele vá parar...”. Sim, porque vê-lo rasgando a reta oposta e atacando Giancarlo Fisichella bem à minha frente foi uma cena (cena) que dificilmente vai sair da minha cabeça pelo resto da vida.
 Felipe Massa comemora com a bandeira do Brasil a vitória em Interlagos
Quando verei de novo um heptacampeão da maior categoria do automobilismo mundial dar um show tão de perto assim? Quando verei uma outra vitória de um piloto brasileiro no GP Brasil de Fórmula 1 (a anterior havia sido 13 anos atrás e eu perdi)? Quando verei um título, ainda que quase decidido, ser definido no Brasil?
É uma desses dias que só daqui a um tempo terei a dimensão de o quão repleto de felizes e raros fatos ele foi. Possivelmente não viva de tão perto uma emoção como essa nem daqui a cem anos. E nesta segunda-feira, 23 de outubro de 2006, faz exatamente cem anos que o 14 Bis de Santos Dumont fez seu primeiro vôo. Importantes fatos para lembrar, separados por uma centena de anos.
|