Fim de ano é aquela época em que a gente aproveita para resolver algumas pendências. No meu caso, uma delas foi renovar a CNH (Carteira Nacional de Habilitação), que vencia em 31 de dezembro. Desde 28 de junho de 2005, motoristas habilitados há mais de sete anos precisam fazer cursos de primeiros socorros e direção defensiva e passar por uma prova – são 30 questões de múltipla escolha, e é aprovado quem acerta pelo menos 21 nos 40 minutos em que dura o exame. Quem preferir pode estudar por conta própria.
Como rato de internet e jornalista especializado na área automotiva (e velho martelador acerca de questões de cidadania e boas maneiras no trânsito), dispensei as 15 horas de aula nos CFCs (Centros de Formação de Condutores) e fui com a cara e a coragem enfrentar o exame no Detran (Departamento Estadual de Trânsito) paulista, que é de graça. De graça não exatamente, pois, fazendo as contas de quanto gastei com combustível e estacionamento, teria sido mais barato pagar R$ 28 por uma prova eletrônica em um CFC. Quem mandou ser pão-duro? O que mais chamou minha atenção na sala de exame foi o nervosismo das pessoas à minha volta, gente muito simples. O senhor sentado a meu lado parecia rezar, sussurrando a prova inteira. Pouco antes de o exame começar, a mulher à minha frente devorava uma apostila como uma vestibulanda de medicina.
Claro que não fui fazer a prova sem pelo menos dar uma lida no material didático. O site do Detran diz que é possível baixar as apostilas para estudo no endereço eletrônico do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito). Nele, porém, está escrito que o aluno não pode usar essas apostilas como fonte única de estudo. Vai entender... Mais me estarreceu, no entanto, o que estava por vir. O péssimo português e a quantidade de margens a dupla interpretação na prova – que está praticamente toda lá, no portal eDetranSP (http://portal.detran.sp.gov.br), em versão ampliada (o dobro do número de questões), no link “Simulado de Exames On-Line”. Nele a gente fica sabendo que, “no caso de testemunhar um acidente com vítimas”, o correto é responder que “não prestar auxílio será considerado omissão de socorro”. É isso mesmo? Não vou entrar no mérito de que não participei do acidente. Só quero saber se essa é a única resposta possível, uma vez que posso não me sentir seguro em socorrer um acidentado. Discutível, não?
Outra questão genial: “Os fragmentos dos veículos acidentados devem ser removidos da pista. E o que deve ser feito quando houver óleo derramado na pista?” Resposta certa: “Deve-se jogar terra ou areia sobre a área afetada”. Isso em detrimento de outra resposta, “deve-se lavar a pista”. Puxa, então estou cansado de ver autoridade fazendo o que não deve. Por outro lado, não sabia que era minha função (como motorista ou socorrista, que seja) jogar terra ou areia na pista...
Estudando para a prova descobri ainda quais infrações são leves, médias, graves e gravíssimas. Algumas a gente deduz. Outras tem de decorar. Dependendo do quão dramáticas tornamos as situações no filminho que passar pela cabeça, todas podem virar gravíssimas... Qual é a utilidade prática de saber qual é a pontuação de cada uma, se o que importa é nunca cometer infração alguma? Verificar o que ainda posso fazer de errado quando meu prontuário no Detran estiver beirando os 20 pontos?
Veja essa, que está entre as questões de “Legislação de trânsito”: "Numa via de fluxo rápido, onde a velocidade máxima permitida é de 80 km/h, quais são as distâncias para início de sinalização de um acidente de trânsito, quando estiver chovendo?” Resposta certa: “160 passos longos”. Ainda que nesse ponto exista um buraco, ainda que eu tenha as pernas curtas, ainda que cada caso seja um caso...
Verdadeira pérola e ode à decoreba, no entanto, é a seguinte questão: “A sinalização é um sistema de comunicação para ajudar o condutor a dirigir com segurança (sic). Por que devemos sempre respeitá-la?” Resposta certa: “Porque ela é projetada com base na engenharia e no comportamento humano”. Aposto que muita gente marca outra: “Porque ela impede que venhamos a cometer infrações de trânsito”.
Sou a favor do tal curso. Acho que falta formação teórica. Ou aplicar a teoria à prática. Também fiz questão de passar em auto-escolas para saber o que algumas achavam da prova. “Ah, ouvi dizer que essa prova vai cair, que não dura muito tempo...”, disse o profissional de uma delas. Para ninguém depois dizer que só critico e não aponto soluções, segue uma sugestão: que tal pedir que instituições como Fuvest (Fundação Universitária para o Vestibular), reconhecida por fazer exames quase irretocáveis, que privilegiam o raciocínio lógico, elaborem as questões?
O pessoal à minha volta no Detran estava nervosíssimo. Pessoas que não queriam passar no exame na malandragem. Queriam aprender, dirigir bem. No entanto, da forma como é feita, a prova parece mais uma vez aquele velho caso em que o importante é passar – nem que seja decorando as respostas –, não aprender.
Ah, o leitor curioso vai perguntar se passei no exame. Sim, passei. Mas só depois de resolver muito o simulado on-line em noites de insônia e saber exatamente que alternativas a banca queria que fossem respondidas.
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