Por mais que algumas empresas digam que tratam o tema recall com a máxima transparência, isso não ocorre na prática. Já faz alguns meses que ensaio escrever sobre isso, mas posterguei por dois motivos: primeiro porque fiz uma reportagem sobre o tema para uma revista (e tocar no assunto aqui poderia soar como tendo aproveitado a apuração de outrem, o que não ocorreu); segundo porque queria observar se era apenas uma cisma ou se determinado fenômeno ocorria na prática. E ocorre.
As mesmas fabricantes (ou importadoras) de automóveis que enviam aos jornalistas informações sobre recorde de vendas ou participação em determinado evento grandioso não enviam “press releases” que comunicam recall, a não ser que procuradas pelo órgão de imprensa. Nesta semana mesmo tive de ouvir de um assessor a seguinte frase: “Puxa, hoje você demorou para ligar”. É que, quando a notícia do recall sai no jornal (o que a empresa é obrigada a fazer, além de enviar uma carta a quem comprou o automóvel), trato de telefonar para saber mais detalhes, como o número de veículos envolvidos etc. A empresa, por sua vez, tem o comunicado prontinho e envia em poucos minutos. Por que ele não é enviado automaticamente, assim como ocorre com os que trazem “boas notícias”?
Já estou esperando um leitor escrever: “Deixe de ser ranzinza. Afinal, eles enviam cartas aos proprietários”. Errado. A montadora envia carta somente ao primeiro proprietário. Se ele recebe a carta comunicando sobre o recall e já vendeu o veículo, quase sempre joga a carta fora, pensando: “Por que vou ter o trabalho de localizar quem comprou de mim ou quem comprou de quem comprou de mim?” Como os dados de propriedade do veículo são sigilosos (ah, tá... Então por que as pessoas têm medo de que suas placas apareçam em uma foto, por exemplo?), ou pelo menos deveriam ser, não há um cruzamento que possibilite chegar ao atual proprietário pelo número do chassi, por exemplo. E olha que recall sempre está ligado à segurança!
Por informações que eu tenho, isso está próximo de acontecer. Funcionaria assim: constatado o recall e quantos veículos estão envolvidos, a montadora providencia as cartas, paga as postagens e as deixa a cargo do Detran (Departamento Estadual de Trânsito). Isso para que os dados do proprietário não passem de mão em mão. Enquanto isso não acontece, que tal propagar as informações sobre recall com o mesmo ímpeto que os recordes de vendas ou as ações de marketing? Já passou da hora do recall, esse tabu, ser tratado de fato como algo normal.
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