Nesta semana foram apresentados os resultados de um crash-test realizado pela Pro Teste (Associação Brasileira de Defesa do Consumidor), que comprou um Volkswagen Fox e o jogou contra a parede – seguindo os critérios do Euro NCAP (European New Car Assessment Program), renomada instituição européia de avaliação de segurança veicular. Nem precisava tanto. A conclusão foi óbvia: um carro equipado com airbag e cinto de segurança com pré-tensionador é mais seguro do que esse mesmo modelo sem esses itens. No texto que divulga o feito da Pro Teste, está escrito: “Teste de colisão revela carros perigosos” e “(...) o Brasil exporta modelos seguros e vende mais no país a versão sem os itens básicos de segurança”. Diz ainda qual é o objetivo com o crash-test: “Pressionar todas as montadoras para que vendam, no Brasil, carros com igual configuração mínima de segurança que na Europa”.
Este colunista já estava redigindo um texto ferino quando foi carinhosamente atendido por Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Pro Teste. Segundo ela, não se trata apenas de pressionar os fabricantes. É preciso trabalhar para que o governo reduza os impostos que incidem sobre os itens de segurança dos veículos. Segundo a entidade, o Fox “brasileiro” adquirido (1.0 City, versão mais modesta) custa R$ 29.990, enquanto um “europeu” (equipado com cinto mais moderno, aviso sonoro de que ele não está afivelado e airbag; note que ninguém falou em sistema ABS, que impede o travamento das rodas...) sai por R$ 35.800. Ou seja, R$ 5.810 a mais. Primeira pergunta: você pagaria quase R$ 36 mil por um Fox “mil”, sem ar-condicionado e direção hidráulica?
“Entendemos que a situação vá impactar no preço. Mas como esses itens seriam fabricados em larga escala, os custos poderiam ser diluídos se os veículos saíssem de fábrica com os itens”, afirma Maria Inês a Interpress Motor. O argumento para convencer o governo de uma redução de impostos passaria pela apresentação dos custos que o poder público tem no atendimento a acidentados. De fato. Pesquisa divulgada recentemente pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) revela que, nos anos de 2004 e 2005, os acidentes nas rodovias brasileiras custaram ao país R$ 22 bilhões, o que equivale a 1,2% de toda a economia nacional.
Ela ressalta: “Fizemos uma denúncia da maior gravidade. Como pode uma mesma montadora ter uma política para o Brasil e outra lá fora?” Não sou porta-voz da Volkswagen, muito pelo contrário (até porque a empresa já divulgou nota sobre o assunto). Mas vale lembrar que até pouco mais de uma década atrás o cinto de segurança não era obrigatório – muita gente até hoje “se esquece” de usá-lo. E que impera no Brasil a máxima de: “Airbag pra quê? Não compro carro pra bater...”
Responda rápido: entre pagar R$ 2.065 pelo airbag duplo e R$ 4.090 pelo ar-condicionado, com qual item você fica? Aposto que é com o segundo, sob o discutível argumento de que “em cidade grande, ar-condicionado também é item de segurança”, pois possibilita andar com os vidros (de preferência escurecidos por uma película) fechados. No Fox o ABS custa R$ 2.780. Ah, antes que o estimado leitor aposte e perca, segue o dado estatístico: de todos os Fox vendidos no ano passado, apenas 0,4% tinham ABS e 2,5% eram equipados com airbag. Ar-condicionado foi o item preferido para 45%.
Voltando de viagem feita neste Carnaval, sob forte chuva, vi um carro que havia acabado de capotar no canteiro central da rodovia Castello Branco. Aposto que, se ele tivesse freios com sistema ABS, ele não teria saído da pista (o que provavelmente ocorreu por aquaplanagem e descontrole após travamento das rodas). Sim, não é de hoje que a vida humana vale menos para quem tem menos dinheiro – e o baixo poder aquisitivo, aliado a uma das maiores cargas tributárias do mundo, ajuda a explicar, junto com o fator cultural (a velha e boa educação), por que não podemos/queremos ter automóveis mais seguros. Quando são mais seguros, isso ocorre mais por jogada de marketing do que por conscientização. Quem não se lembra do Renault Clio, lançado em 1999 com airbag em todas as versões? A estratégia não durou muito mais do que um ano. Para ganhar mercado, a montadora foi obrigada a retirar a opção, o que barateava o modelo em cerca de R$ 1.000 e fazia com que o veículo ficasse ao alcance de mais gente.
É louvável o esforço em mostrar o quão atrasados estamos em relação ao Primeiro Mundo – eis portanto por que esse crash-test, ou o “barulho” em torno dele, se mostra tão importante. Mas não basta simplesmente equipar todos os carros com itens modernos de segurança. Há um longo caminho a percorrer antes disso.
PS – Há cerca de um mês, publiquei aqui uma Autogiro sobre a resistência das montadoras de noticiar o recall da mesma forma como divulgam outros assuntos (leia aqui). Vale lembrar que pelo menos duas empresas são exceção a essa regra: Volkswagen e Volvo. Elas enviam notas sobre seus recalls a toda a imprensa, com a mesma veemência que o fazem em relação a seus lançamentos.
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