Belíssimo tributo à vida e à obra de Roberto Carlos o livro “Roberto Carlos em Detalhes”, de Paulo Cesar de Araújo. Não que não haja defeitos. Como fã declarado do cantor – e todos que me conhecem sabem disso –, encontrei inúmeras imprecisões, mesmo em transcrições de letras. Mas nada que comprometa o documento histórico (afinal, história é feita de versões, não de “verdades factuais”) que é o livro, que narra o processo de formação desse ídolo nacional, mas não sem trazer à tona minúcias bastante reveladoras.
Uma das passagens mais interessantes é a forma como esse livro que o cantor tanto quer proibir aborda um ponto que permeia toda a obra de Roberto Carlos – e que já abordei em artigo nesta coluna quando ela era publicada no site “Best Cars” (leia aqui). Trata-se do tema velocidade. O livro diz: “A paixão de Roberto Carlos pelos automóveis surgiu muito cedo na sua vida. Ele tinha quase seis anos quando passou em frente à loja Ao Preço Fixo, no centro de Cachoeiro [de Itapemirim, Espírito Santo, sua cidade natal] (...), e viu um jipe de pedal, daqueles para a criança rodar pelo quintal de casa. Seus olhos infantis brilharam diante do carrinho na vitrina e ele voltou para casa falando nisso. Naquela mesma noite, na hora do jantar, pediu para seu pai lhe dar aquele carro de presente”.
O brinquedo era caro, e seu pai não pôde lhe dar, mas o presenteou no final do ano com um jipinho de madeira amarrado com barbante. Foi apenas em 1963, aos 22 anos, com o sucesso de “Splish Splash”, que ele conseguiu comprar seu primeiro automóvel: um Volkswagen 1960 bege com estofamento vermelho, calotas cromadas, antena estilo rádio-patrulha. Com ele Roberto viajava e se apresentava em circos e clubes. No final daquele ano, com o sucesso de “Parei na Contramão”, trocou por um Chevrolet Bel Air 1955 branco com estofamento vermelho.
Tempos depois ele sofreu um acidente com o carro e, antes de tirá-lo do conserto, já havia comprado outro Volkswagen usado. Em 1965, ano de sucessos como “Não Quero Ver Você Triste” e “História de um Homem Mau”, comprou seu primeiro carro zero-quilômetro, também Volkswagen. Quando explodiu com a canção “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, Roberto comprou seu primeiro importado – um Impala vermelho com estofamento branco, rádio e até TV! Com um sucesso atrás do outro, vieram outro Impala, um Oldsmobile conversível, um Esplanada, um Cadillac, um Calhambeque e outro Volkswagen 1600. Isso sem falar de outros modelos que ganhou de presente, caso de um Jaguar 1968, presente da gravadora, e de um Dodge Charger 1971.
No livro há muitas outras histórias de Roberto Carlos com a velocidade. Inclusive a inspiração para “120, 150, 200 km por Hora”. Foi a bordo do Jaguar, pelas ruas de São Paulo, que veio a inspiração para cantar a história de alguém que vive fugindo sem destino algum, seguindo caminhos que o levam a lugar nenhum. Sim, porque há momentos em que sair de carro é uma grande terapia. Eu prefiro as curvas da estrada de Santos.
Livro: “Roberto Carlos em Detalhes” Autor: Paulo Cesar de Araújo Editora: Planeta (506 págs.)
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