Algumas pessoas perdem o juízo na medida em que envelhecem. Deve ser um pouco o meu caso. A despeito de todas as estatísticas acerca de motoboys mortos no trânsito – dados extra-oficiais dão conta de que seriam três por dia –, resolvi ser mais um motorizado sobre duas rodas há exatos cinco anos, quando adquiri uma Honda C100 Biz, animado com seu bagageiro. Meses antes, no entanto, dei trabalho a meu anjo da guarda. No exato dia em que fui buscar a nova carteira de habilitação na auto-escola, resolvi pegar uma CBX 250 Twister emprestada da Honda e me mandei para Campinas, interior de São Paulo. Na rodovia dos Bandeirantes, quase fui parado no posto policial por falta de velocidade.
Não, eu não era aquele caso típico de alguém que já sabia pilotar moto e foi tirar habilitação “A” para andar na linha. Mesmo trabalhando havia alguns anos com automóveis, eu nem sequer sabia onde se ligava uma motocicleta nem para que serviam manoplas etc. Curioso é o clima do exame realizado no Detran (Departamento Estadual de Trânsito) paulista. Jovens de 18 anos recém-completados mostram nos olhos o quão passar naquele teste é uma questão de auto-afirmação. Isso foi o que mais me impressionou.
Assim como aconteceu comigo há pouco mais de cinco anos, muita gente começa a dirigir moto todos os anos. Na semana passada, a Honda divulgou o perfil dos compradores de suas motocicletas em 2006. O percentual de novos usuários impressiona: 28%. Também chama a atenção a quantidade de mulheres entre os compradores: 24%, contra 76% do sexo masculino. A amostragem foi de 3.360 pessoas em todo o país. Quando comprei minha Biz, acreditava que era possível dirigir defensivamente, ao contrário daqueles tresloucados motoboys chamados na gíria urbana de “cachorros loucos”.
Problema é que os maiores inimigos dos motociclistas (ou motoboys, que sejam) não são os carros e sim eles mesmos. Cortam aqui e ali e criam situações potencialmente perigosas para a própria classe. Experimente pegar a Marginal Pinheiros e tentar seguir com cautela por um corredor. Você será xingado e ouvirá muito o som de buzinas reclamando de sua suposta lerdeza – mesmo que esteja no limite de velocidade da via. Acredito em cidadania no trânsito, ainda que se tratando de duas rodas. Caso contrário, já teria vendido minha velha e boa Honda Biz.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.
è Leia aqui a coluna anterior: "Carro, samba e alfajor".
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