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ARTIGO
AUTOGIRO
"Já ouviu falar em seta, estúpido?"
Histórias sobre cidadania, comportamento e uma boa idéia
por LUÍS PEREZ

DivulgaçãoEu falo sozinho. Falo sozinho no carro quando estou dirigindo. Quem não faz isso? Eu faço e assumo. Faço contas, converso comigo mesmo, divirjo, discuto. Sozinho. Parado no engarrafamento. O período de autoconhecimento que o trânsito de São Paulo proporciona é inestimável. Até porque nesta cidade congestionamentos não têm hora para acontecer. Pode ser 23h de uma quinta-feira em plena marginal Pinheiros, sem nenhum motivo aparente. Haja paciência... O motorista ao lado vê minha discussão comigo mesmo. Dane-se. Problema meu. Não sou de brigar no trânsito. Quando quero xingar alguém, o faço baixinho, com os lábios bem articulados, que é para me fazer entender. Toda vez que saio de carro, sem exceção, alguém faz uma conversão à minha frente sem dar seta. A frase é recorrente depois que passo pelo infeliz é: “Já ouviu falar em seta, estúpido?”

*

Adalberto tem uma banca de jornais na avenida Pompéia, zona oeste São Paulo. Adoro o bairro da Pompeía. Não é badalado, movimentado e caro como os adjacentes Vila Madalena e Perdizes. Tem tudo o que os outros têm, mas é mais tranqüilo, como os vizinhos bairros da Lapa e Vila Romana. Semana passada encontrei o presidente da Fiat, Cledorvino Belini, na padaria. Ah, mas o Adalberto... Ele tem uma banca, a banca do Barba. É pequena no tamanho, mas não nas idéias. Barba (não é difícil identificá-lo) costuma aplicar testes de conhecimento em seus fregueses. Seu prêmio é uma semana de jornal. Certa vez tentei resolver o de matemática. Fui mal, não acertei tudo (aliás, quase nada...). Outro dia Barba perguntou se eu queria fazer o teste de português. Respondi que eu era jornalista e que, por isso, talvez não fosse justo fazer o teste, pois seria minha área de atuação. Ele insistiu. Fiz o teste. Era para encontrar dez erros em um texto. Ganhei uma semana de jornal. “Pensei que você fosse se enrolar no trecho sobre a crase”, disse. Bela iniciativa a de Adalberto.

*

Outro dia aconteceu uma tragédia. Um menino de um ano e meio morreu desidratado dentro de um automóvel, em Guarulhos (SP), esquecido pelo pai. Ninguém viu a criança. A película escura instalada para dar mais segurança impossibilitou que alguém visse o menino na cadeirinha do banco de trás. Há algum tempo eu pretendia escrever sobre os bunkers em que se transformaram os automóveis – quebra-mato, estribo, engate (regular ou não), insulfilme... Minha abordagem seria mais leve. Acerca da película escura, iria dissertar sobre o fim da paquera que havia entre motoristas. Quem não conheceu um namorado ou uma namorada (ou um ficante...) no trânsito? Ou não trocou olhares e flertes com a pessoa que está no volante do carro ao lado? Quem não fez isso dificilmente o fará. Hoje a gente não sabe mais o que acontece na escuridão do carro ao lado.

*

Pobre Gerson. Foi um grande jogador. Não, não o vi jogar. Nem ele nem Pelé. Minha geração está predestinada à espera do gol mil do Romário. Mas, quando era criança, via os comerciais de cigarro que ele fazia na TV, que terminavam assim: “Porque você tem de levar vantagem em tudo, certo?” Pobre Gerson. Quem sabe a Lei de Murphy (tudo o que tem possibilidade de dar errado dará) o levou a protagonizar a Lei de Gerson (é preciso levar vantagem em tudo)... Não é essa a lógica do capitalismo? A busca do lucro? Problema é que alguns extrapolam e decidem levar muita, muita vantagem mesmo em tudo. Só para este site chovem e-mails de pessoas querendo saber como comprar o carro X ou Y com desconto. Das duas uma: você pode pesquisar bastante entre as concessionárias concorrentes ou abordar um vendedor simplesmente pedindo um desconto acrescentando ao final a célebre frase: “Você sabe com quem está falando?” Vai que cola...

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.

è Leia aqui a coluna anterior: "O que vem por aí?"

Publicado em 24/04/2007

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