Era uma tarde como outra qualquer em minhas atribuições como editor de “Veículos” da “Folha de S.Paulo”. Toca o telefone em minha mesa. Toques curtos, rápidos, sinal de que se tratava de uma ligação de dentro do prédio do jornal. Atendo. Do outro lado da linha, uma mulher me diz: “Só um minutinho. O seu Frias vai falar”. “Seu Frias?”, pensei. “O que será que ele quer comigo?”
Trabalhava no jornal havia quase uma década, mas nunca tive com ele mais contatos além dos esporádicos, no corredor ou no elevador. Sempre ouvi histórias incríveis sobre seu jeito direto, intuitivo, bem humorado, desprendido... Às vezes o via sair nos mesmos carros de reportagem que nós. Ou dirigindo seu automóvel sem nem um segurança sequer. Era uma figura incrível.
Mas naquela tarde a mulher demorava a me passar o seu Frias. Comecei a achar aquilo estranho. Devia ser trote de algum engraçadinho, imaginei. Afinal havia uma editora de Suplementos e um punhado de outros cargos entre ele e mim. A voz feminina retorna: “Você pode vir aqui ao nono andar? O seu Frias quer falar com você”. Olhei em volta para tentar encontrar o autor do suposto trote rindo à miúda, mas não vi ninguém que se delatasse.
Pensei: “Vou pagar o mico de subir do quarto ao nono andar e pedir para falar com o seu Frias, sendo que ele nem deve ter me chamado”. Nessas horas, no entanto, é melhor não arriscar. Tomei o elevador, cheguei ao nono andar e disse à recepcionista que havia recebido um telefonema dando conta de que seu Frias queria falar comigo. Ela pediu então que eu entrasse. Seu Frias estava de pé ao lado de sua mesa de trabalho.
“Boa tarde”, cumprimentou-me. Com um papel na mão, perguntou se eu me lembrava de um executivo que havia sido presidente da Fiat brasileira. “Sim, o Pacifico Paoli”, respondi. Ele havia almoçado com Paoli dias antes, e o executivo, então proprietário de concessionárias da marca, acabara de lançar o site automotivo “Carsale”, em sociedade com o UOL, do grupo Folha. Seu Frias então sugeriu que eu fizesse uma reportagem sobre os sites automotivos que estavam surgindo na internet brasileira. Uma ótima pauta, aliás – e o momento de cumpri-la era aquele.
Só que um detalhe me chamou muito a atenção. O mais comum em um empresário de comunicação é pedir um texto laudatório, enaltecendo seu negócio, mostrando apenas seu ponto de vista (vivenciei essa realidade após sair da “Folha”; ou seja, seu Frias nos acostumava mal...). Logo após sugerir a reportagem, a única recomendação mais veemente que seu Frias fez foi: “Gostaria que você não só o ouvisse, mas que ouvisse seus concorrentes também”.
Seu Frias despediu-se de mim com um “prazer em conhecê-lo”. Desci pelo elevador com a certeza de que sempre iria me lembrar daquele momento, que ilustra em um pequeno episódio o tamanho da perda que sofremos.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.
è Leia aqui a coluna anterior: "Já ouviu falar em seta, estúpido?"
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