A Renault foi a primeira montadora brasileira a oferecer airbags de série para todos os seus modelos. Desistiu depois de pouco tempo, porque havia a demanda por veículos mais baratos e porque a empresa descobriu, tardiamente, que o consumidor brasileiro não faz questão desse equipamento. No Brasil os consumidores ainda preferem itens de conforto, como ar-condicionado e direção assistida, ou de estética, como rodas de liga leve e kits aerodinâmicos. A alegação mais ouvida é a seguinte: “Ninguém compra carro para bater”. Outro argumento, bastante ouvido, diz respeito ao mercado de usados: como saber se o airbag foi usado ou não? Nesse caso, basta procurar uma concessionária, mas o assunto parece causar urticária nos preguiçosos.
Seria diferente se o airbag fosse item de série para todos os automóveis. Nesse campo a discussão não é nova: nos últimos dez anos, sete projetos de lei foram apresentados na Câmara dos Deputados e um no Senado Federal para tornar o airbag obrigatório, sem sucesso até agora. Um reflexo da importância que os motoristas dão para o assunto. Estamos bem distantes da Europa. Lá o equipamento não é obrigatório, mas todos os modelos, até os mais baratos, o oferecem.
O assunto foi alvo há alguns meses de um estudo feito pela Fundação Pro Teste, que comparou um Volkswagen Fox brasileiro, sem airbag, a um europeu, que tem o item de série. É óbvio que o carro de exportação foi melhor e não era preciso ser um gênio para saber que isso iria ocorrer, mas o ideal seria comparar dois veículos em igualdade de condições. Ressalte-se que o airbag é oferecido para o Fox nacional, mas apenas 0,3% dos modelos com motor 1.0 saem de fábrica com o item.
Outro ponto de reflexão é o freio ABS. Iniciais de "antilock brake system", do inglês "sistema de freio antitravamento", sua grande vantagem não é reduzir o espaço de frenagem, como muita gente acredita. O benefício é permitir que o veículo mantenha sua dirigibilidade em situações extremas. É fácil entender: numa frenagem de emergência, o motorista tende a pisar fundo no pedal, travando as rodas. O veículo vai deslizar em linha reta, mesmo que o volante esteja virado. Muitos atropelamentos e colisões traseiras podem ser evitados com o uso desse item.
Por ser um equipamento de segurança ativa (que ajuda a prevenir acidentes), ao contrário do airbag, que é passivo (minimiza os danos quando um acidente ocorre), talvez o ABS fosse até mais interessante do que o airbag como item obrigatório nos carros nacionais. O único porém é que ele exige algum treinamento do motorista, pois não são todos que possuem sangue frio para fazer uma manobra evasiva. Além disso, o ABS causa uma incômoda pulsação no pedal nas frenagens fortes, sinal de que ele está atuando para evitar o travamento das rodas.
Fora o ABS e o airbag, há uma terceira questão sobre segurança, que é um pouco subjetiva: a estabilidade dos veículos. Um carro que é mais seguro em alta velocidade e em curvas será mais seguro em todas as situações. Infelizmente pouca gente tem a oportunidade de testar veículos em situações reais antes de comprá-los, e o test-drive da loja geralmente se restringe a uma voltinha no quarteirão.
Quem transporta crianças, por exemplo, deveria pensar sobre segurança. Aliás, já pensa: pesquisas das montadoras indicam que as mulheres com filhos valorizam os itens de segurança muito mais que os homens. Falta estender essa consciência ao restante da população com poder aquisitivo para comprar automóveis.
Eduardo Hiroshi é editor do caderno “Máquina” do jornal “Agora São Paulo” e escreve às quintas-feiras em Interpress Motor.
è Leia aqui a coluna anterior: "Inversão de valores".
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