Durante o lançamento da Mégane Grand Tour, no fim de 2006, tive a oportunidade de integrar um pequeno grupo de jornalistas que iria almoçar com Jérôme Stoll, então recém-empossado como presidente da Renault do Brasil. Durante a refeição e após responder com desembaraço às principais perguntas dos repórteres que estavam na mesa, ele nos perguntou qual era a percepção do consumidor brasileiro sobre a imagem da Renault do Brasil. Todos citaram os mesmos problemas: atendimento fraco nas concessionárias, poucos lançamentos e ausência de ações de marketing que comunicassem os melhores atributos dos produtos Renault.
Fiz uma pergunta a ele: “O que o senhor pretende fazer para combater o problema da manutenção cara?”. Stoll respondeu que estava ciente dessa questão, mas que havia um problema junto à rede de concessionárias, que não estaria cumprindo as tabelas de preços de peças sugeridas pela empresa (é bom lembrar que as revendas não pertencem às montadoras) e que havia uma ação em andamento para rever isso. Entre os detalhes, o presidente falou em nacionalização de componentes e renegociações com fornecedores e com as próprias revendas, e garantiu que teríamos boas notícias a médio prazo.
Pois a hora da reação começou. O Logan, que chega às lojas no começo de julho (leia reportagem aqui), oferece três anos de garantia, a maior do segmento dos carros compactos, e há a promessa de manutenção barata. Nos cálculos da empresa, as manutenções normais dos primeiros 36 meses custarão R$ 1.001, ou pouco menos de R$ 1 por dia. De acordo com a Renault, quem chega mais perto entre os sedãs é o Fiat Siena, com R$ 1.004. Para seduzir um público que nem sabe que a Renault tem fábrica no Brasil, a empresa fez uma curiosa parceria com o Carrefour e vai oferecer o automóvel para test-drive em 99 supermercados...
Garantia de três anos é, sem dúvida, um gigantesco agregador de valor e também uma das causas do sucesso de Honda Civic e Toyota Corolla, que forçaram a Chevrolet a fazer o mesmo no lançamento do atual Vectra, em 2005. Mas também é uma iniciativa que custa caro à montadora. A Renault, que nunca deu lucro no Brasil e ainda desistiu dos airbags de série nos Clio básicos, fez uma manobra forte e ousada para melhorar sua imagem.
Apesar do estilo do Logan ser discutível (e a estética é a principal razão de compra no Brasil), ele promete chacoalhar as estruturas do mercado, apontando a publicidade para os atributos racionais do veículo, e é o lançamento “popular” mais importante do ano.
No entanto, a Renault é modesta e aposta em uma média de 1.500 Logan por mês neste ano. A meta é tão baixa que só supera um produto da própria casa: o Clio Sedan, que vendeu cerca de 1.300 carros por mês neste ano. Quem olhar para trás verá alguns equívocos recentes da marca francesa que ajudam a explicar a cautela. O mais recente foi a campanha de lançamento do Mégane, desastre que a própria empresa admitiu depois. A publicidade não comunicou adequadamente os atributos do veículo, mostrando um monte de pedestres se jogando para dentro de um Mégane.
Se o público achar que o Logan é tão sedutor quanto um jornal de dois meses atrás, a Renault estará em dificuldades. No entanto, a empresa não parece ter dado um tiro no escuro e está pronta para chamar para dentro de suas concessionárias um novo tipo de consumidor, muito sensível ao bolso e que faz questão de economizar.
Eduardo Hiroshi é editor do caderno “Máquina” do jornal “Agora São Paulo” e escreve às quintas-feiras em Interpress Motor.
è Leia aqui a coluna anterior: "O primeiro passo das inspeções".
|