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ARTIGO
AUTOGIRO
Cada país tem a elite que merece
E não é que o dono do Porsche parou na vaga de deficientes?
por LUÍS PEREZ

DivulgaçãoMuito se fala sobre inclusão social. A violência e a barbárie que constatamos todos os dias na mídia seria então culpa da “falta de oportunidade” de algumas pessoas – isso quando a culpa não é da própria mídia, motivando as velhas e boas metáforas segundo as quais “você está culpando a janela pela paisagem” ou “quebrando o termômetro para curar a febre”. Pois bem.

No país em que há dez anos foi queimado em Brasília um índio pataxó – “Ah, mas a gente achou que era um mendigo...” – e há poucos dias espancada uma empregada doméstica – “Ah, mas a gente achou que era uma prostituta...” –, já virou lugar-comum afirmar que o automóvel é sim uma espécie de instrumento de auto-afirmação social. Quem tem os modelos mais caros pode mais, não é mesmo? Mesmo status tem o diploma de curso superior – e dá-lhe faculdade com o prefixo “uni” que nada mais são do que máquinas de arrecadar fortunas de pseudo-alunos incautos. No outro extremo há a exaltação da falta de preparo e o falso autodidatismo.

Mas de onde vem tanta indignação? De uma cena exemplar, vivida há algumas semanas e que fiz questão de fotografar (abaixo). Chego de um rali da Copa Peugeot a um hotel em Goiânia. Entro no estacionamento, que estava praticamente lotado. Só não estava ocupada uma vaga, bem à frente da porta de entrada. Detalhe: ela era reservada a deficiente físico. O dono de um Porsche Boxster conversível não teve dúvidas – estacionou naquela vaga com a maior cara-de-pau e foi curtir o almoço de confraternização que acontecia no hotel.

Luís Perez
O dono do Porsche não teve dúvidas: ignorou solenemente o aviso da placa

Será que o dono desse carro que no Brasil tem seis dígitos no preço não teve educação adequada? Ou, no velho clichê, não teve “oportunidade na vida”? Pois não é preciso ir a Goiânia. Vá a qualquer supermercado que tenha vagas para deficientes e veja a quantidade de pessoas que não respeitam nem um pouco essa determinação. Anos atrás uma amiga advogada, paraplégica, foi parar seu carro em um shopping do Rio de Janeiro, ao que foi alertada pelo segurança: “Você não pode parar aí!”. Ela retrucou: “Por que não? Sou paraplégica, e a vaga é para deficientes”. Ao que o brilhante “cidadão” respondeu: “Mas você não tem cara de deficiente”. Brilhante. Só não mais brilhante do que o dono do Porsche, que deve ter uma gorda conta bancária. Mas não sabe o significado da palavra cidadania.


PS – Após um tempo sem atualizar a coluna, tenho de ser realista. As atribuições do site estão impedindo que eu consiga manter a regularidade desta Autogiro. Sendo assim, ela passa a ser quinzenal a partir desta semana.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve quinzenalmente às terças-feiras neste espaço.

è Leia aqui a coluna anterior: "Tragédia do vôo 1907 vira documentário".

Publicado em 03/07/2007

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