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ARTIGO
AUTOGIRO
Não é preciso ser, basta parecer
Vectra GT confirma idéia de que consumidor compra imagem
por LUÍS PEREZ, de Trancoso (BA)

Luís Perez - foto Pedro BicudoO lançamento do Vectra GT, que ocorre hoje em Trancoso, na Bahia (leia aqui), consagra no setor automobilístico o antagonismo à máxima da mulher de César – aquela segundo a qual não basta ser honesta, mas é preciso também parecer honesta. Quando o assunto é automóvel, não é preciso ser. Basta parecer. Aliás, é melhor mesmo que não seja, pois fica mais barato. No caso, o "ser" é esportivo. Não é à toa que, no material de divulgação distribuído na manhã desta terça-feira à imprensa, bem como nas fotos divulgadas até aqui, a GM deu muito mais ênfase à versão esportiva GT-X do que à "básica" GT. O modelo não chega para disputar espaço com hatchbacks mais em conta. É propositadamente mais caro, visando o "tigrão" (homem solteiro, de seus 30 e tantos anos, com bom poder aquisitivo e que curte esportividade).

Há, no entanto, um porém nessa lógica: só há uma opção motor para esse carro com forte apelo esportivo, que é o 2.0 de até 128 cv (cavalos) de potência. Para a GM, a hipótese de ter o 2.4 de até 150 cv é muito remota. "Sabe qual é o principal problema para termos esse motor? É tributário. Carro acima de 2.0 paga mais imposto e, de cara, seu preço ficaria R$ 6.000 mais alto", afirmou a Interpress Motor o diretor de marketing da GM, Samuel Russell, durante o café da manhã que precedeu a apresentação do veículo nesta terça-feira. Sentado a seu lado, o vice-presidente de engenharia da GM para a divisão LAAM, que inclui América Latina, África e Oriente Médio, Pedro Manuchakian, confirmou: "Iria vender só meia dúzia".

Sim, o mercado já aprendeu que não precisa fazer um carro "off-road". Basta parecer fora-de-estrada. Ninguém pega trilha pesada. O mesmo vale para boa parte dos esportivos – que certa vez, anos atrás, quando ainda trabalhava em jornal, apelidei de "esportivados". Não é o caso do Vectra GT ("gêmeo" do Astra europeu), que já chega com esse apelo esportivo. Uma analogia possível é com o Volkswagen Golf 1.6, um carro extremamente agradável de dirigir e reconhecido por sua esportividade a despeito do motor bem menos potente do que outras versões do modelo. Outro médio agradabilíssimo de dirigir e que não tem esse motor todo é o Ford Focus 1.6. Se bem que seu apelo esportivo é bem menor.

Pelo sim, pelo não, é o tempo que vai dizer se a GM, que pretende vender em média 1.250 Vectra GT por mês, terá de lançar mão da versão Expression para o modelo. Marcos Munhoz, diretor-geral de marketing e vendas da GM, já adianta que essa é uma possibilidade remota. Sim, descaracterizaria a proposta, que é ser um hatch top, para poucos (relativamente) e abastados. Escaldadas, as marcas já descobriram que o consumidor pede de tudo. Pagar por esse tudo é outra história. Para o GT, está colocada a equação: o preço não pode subir, e o nível de equipamentos não pode cair. O resultado, para usar um clichê, quem viver verá.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.

è Leia aqui a coluna anterior: "Idade e hora certa de parar".

Publicado em 04/09/2007

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