
Estou cansado de ver, em jornais e telejornais, as mesmas menções. Ah, porque o padre comprou um Mitsubishi Pajero importado... Os bandidos roubaram um carro importado – e a imagem é de um Toyota Corolla. Ou, como li, tempo atrás: Fulano de Tal foi assaltado ao parar seu Audi A3 importado no sinal. Bem, o Pajero em questão é um TR4 produzido na pequena e pacata cidade de Catalão, interior de Goiás. O Corolla, que também tem origem japonesa, é sim um sedã importado. Mais exatamente de Indaiatuba, cidade próxima a Campinas (SP), onde aliás a General Motors tem a maior pista de testes da América Latina. Por fim, o Audi A3 era importado de São José dos Pinhais, município da região metropolitana de Curitiba (PR) até 31 de agosto de 2006, quando deixou de ser fabricado por lá.
Será que é complexo de vira-lata? Afinal já não estava mais do que na hora de as pessoas darem conta de que o Brasil entrou na rota do desenvolvimento e da produção mundial de automóveis? Sim, com todos os prós e contras que isso traz, como fabricar basicamente veículos para o Terceiro Mundo, mas não só. Está certo que carro brasileiro não é sinônimo apenas de Gol, Brasília, Fusca e Escort. Desde os tempos de Juscelino (1955-1960) o Brasil já não é exatamente só uma potência agrícola, mas também industrial. Tudo bem, a vida por aqui ainda vale menos do que em outros países. É uma parcela ínfima a sair de fábrica com itens como airbag e ABS, que salvam vidas. O poder aquisitivo em baixa e a falta de escala ainda nos fazem engatinhar em muitos setores. Mas essa mania de achar que tudo o que parece melhor do que a média é "importado" chega a irritar.
Um dos aviões executivos que mais sucesso fazem mundo afora se chama Legacy 600. É fabricado pela Embraer em São José dos Campos (SP) com base no ERJ-135/145, outro avião de confiabilidade técnica espetacular. Sim, é nacional. A gasolina usada na Fórmula 1 por uma equipe britânica é da Petrobras. Nacional. Uma das maiores gigantes mundiais de mineração se chama Companhia Vale do Rio Doce. Nacional. Sugiro portanto que os não-especializados que resolverem narrar determinado fato que envolve um automóvel procure apurar se aquele veículo é importado ou não. Não se trata de ufanismo, desse mostrado na candidatura do Brasil à Copa-2014. Só acho que esse dado de mentalidade diz muito sobre o que pensamos do próprio Brasil dos abismos sociais. Que não é exatamente um país que só produz grãos, sandálias de dedo e cachaça.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.
è Leia aqui a coluna anterior: "Vou lhe contar um segredo".
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