Não, não adianta. Eu não tenho provas do que vou escrever. É comum fazer esse tipo de afirmação quando se quer dizer algo que nem sempre é possível demonstrar. Algo típico em reportagens na linha "nunca antes se vendeu tanto carro a gás" (quando já se vendeu) ou "é cada vez maior o número de pessoas que procuram cursos de direção defensiva" (quando isso na verdade é uma falácia). Bem, aí vai a minha modesta opinião: nunca vi tantos domingueiros nas ruas.
Isso mesmo. Domingueiros, gente que não sabe dirigir, em todos os dias da semana. Na gíria automobilística, "bração". Seria cômico se não fosse trágico. Conheço quem diga conhecer outrem que, na falta de um emprego público, resolveu ser caminhoneiro. Para tanto, adquiriu uma carteira tipo "E", que custaria algo como R$ 800. Como quem adquire cartões de sócio de grandes atacadistas, manja? A "pequena" diferença é que quem faz isso não está apto a dirigir carretas e coloca em risco a vida de quem nada tem a ver com o pato.
Sim, no país em que o examinador do curso de condutores "canta" as respostas para seu examinado, comprar carteira de motorista é coisa de quem gosta de levar vantagem em tudo, certo? Pois é flagrante a quantidade de pessoas que não têm a mínima aptidão para estar ao volante de um automóvel. Ou porque se esquecem das leis da física e correm demais ou porque se desconhecem o mínimo bom senso e andam devagar demais. Sim, isso também é um perigo, bem como é um perigo a interpretação burra de algumas regras (outra manifestação da falta de bom senso).
Não sei se já contei aqui a história, mas certa vez peguei um táxi, e meu celular tocou. Atendi. Comecei a conversar, mas fui logo interrompido pelo motorista, que disse: “Não pode usar celular dentro do carro. Vou levar uma multa por sua causa”. Até convencer o esperto de que o problema usar-celular-dentro-do-carro se aplicava ao motorista, pois desvia a atenção e as duas mãos não ficam o tempo todo no volante, como é o certo, foi uma luta.
Como único dado objetivo para comprovar o que tenho visto nas ruas há tempos, só tenho a declaração de ontem do presidente da Anef (Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras): "Os novos planos [de financiamento] permitem que uma grande parcela dos consumidores adquira o primeiro automóvel", diz Luiz Montenegro. Resta saber como anda a oferta de crédito para novas carteiras de habilitação.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.
è Leia aqui a coluna anterior: "Importado de onde, cara pálida?".
|