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ARTIGO
AUTOGIRO
Os sete pecados do mundo do automóvel
Como soberba, inveja, preguiça, gula, luxúria, avareza e ira se manifestam
por LUÍS PEREZ

Não, desta vez o tema da coluna não tem nada a ver com novela, apesar da feliz coincidência. Fato é que outro dia, ao imaginar assuntos que poderiam virar reportagem, ocorreu-me constatar que a forma como o ser humano interage com o automóvel é bastante propícia a fazê-lo cometer não só infrações de forma contumaz, mas também os sete pecados capitais. Muita gente compra carro simplesmente para ostentar, impressionar o vizinho ou não mexer uma palha mesmo se for preciso ir só até a esquina. Vejamos a seguir como cada um dos pecados se faz presente no mundo dos automóveis.



Luís Perez - foto Pedro Bicudo/DivulgaçãoSoberba: é o pecado dos que compram picapes e utilitários esportivos simplesmente para olhar os outros do alto ou não levar a pior caso haja algum confronto direto. Em outra leitura, é característico de alguém que pode até morar de favor, mas compra aquele sedã de luxo que custa mais de R$ 150 mil – só para deixar os outros boquiabertos.

 

Inveja: não deixa de ser uma conseqüência do pecado anterior. De tanto ser provocado, o vizinho reage e joga sobre o dono daquele automóvel uma carga negativa por não poder ter um modelo tão opulento. É tema de propaganda na TV de mais de uma marca de carro, inclusive. Em geral envolvendo vizinhos – um não quer deixar ver aquele carrão e a outra ficou roxa de inveja ao ver o zero-quilômetro no outro quintal...

 

Preguiça: em vez de simplesmente caminhar até a padaria da esquina, muita gente prefere tirar o automóvel da garagem. Na boa? Dá muito mais trabalho. Além de poluir mais, é preciso encontrar lugar para estacionar, disputar uma vaga a tapa, sem falar do sedentarismo. O que dizer então dos equipamentos que fizeram do motorista um ser muito, mas muito preguiçoso? São exemplos a direção hidráulica, o vidro elétrico e até o piloto automático. Confesso que estranho quando dirijo um carro com direção sem assistência hidráulica ou elétrica. Estamos mal acostumados. E preguiçosos.

 

Gula: nesse caso, há dois sentidos possíveis. A pessoa que nem precisa, mas faz questão de ter vários automóveis na garagem para não usar (não estou me referindo a colecionadores, o que é outra história), mas apenas para ostentar – o que tem a ver com a soberba. Mas há também quem coma loucamente dentro do carro. São os maníacos por "drive thru", que se refestelam hoje em inúmeras opções de restaurantes que vendem os mais variados sanduíches sem precisar sair da frente do volante.

 

Luxúria: por falar em "drive thru", não nos esqueçamos do "drive in"... O carro usado como objeto de atração sexual. Sim, vou conquistar mais garotas se estiver com o modelo X, Y ou Z, carésimo, de luxo, importado. Não é de hoje. O mesmo não aconteceria se eu estivesse com um veículo "pé-de-boi", sem roda de liga leve ou vidro elétrico...

Avareza: seriam pessoas que pechincham na compra de um automóvel? Que contam os centavos, rejeitando itens de conforto e até mesmo segurança? Diria que não. Nesse pecado em especial estão mais embrenhados alguns fabricantes de automóveis que retiram equipamentos mais ou menos importantes para baratear o custo. Como o carro sem a tampa do porta-luvas. Ou mesmo sem o próprio porta-luvas, que ainda existe no mercado. O que dizer então de vários modelos que só adotaram retrovisor do lado direito quando a legislação obrigou?

Ira: bem, talvez desse pecado não seja preciso nem citar exemplos. Basta sair de carro em uma grande cidade no final da tarde de uma sexta-feira, ou na véspera de um feriadão. Não há somente falta de cordialidade e gentileza. Ao volante de um automóvel, muitos motoristas perdem completamente o senso de civilidade. Xingam uns aos outros, fazem gestos ameaçadores e obscenos... Isso quando não atacam o outro no trânsito, jogando o seu automóvel em cima do condutor (às vezes até sobre um indefeso motociclista) sem pensar sobre o quão barbaramente estão agindo.


Pois é. O que não falta no mundo dos automóveis é pecado.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.

è Leia aqui a coluna anterior: "Mais domingueiros nas ruas".

Publicado em 27/11/2007

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