Um de meus passatempos favoritos quando chega esta época do ano, em que pululam aqui e ali reportagens sobre as "perspectivas 2008", é ir atrás das previsões que os profetas de plantão fizeram a respeito do ano que termina. Não, não perco o meu tempo com charlatanices do tipo "ah, no ano que vem vai morrer um artista famoso", "vai cair um avião" ou "uma celebridade sofrerá um acidente". Falo de previsões supostamente embasadas, como os números de venda de automóveis, produção da indústria e afins. |
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Remexendo meu empoeirado arquivo, encontro uma reportagem da "Folha de S.Paulo" do dia 7 de dezembro de 2006, cujo título era: "Exportação cai e deve frear produção de carro". Nela o então presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), Rogelio Golfarb, diretor da Ford, afirmava categoricamente: "A contribuição da indústria automobilística para o crescimento do PIB [produto interno bruto, conjunto das riquezas produzidas pelo país] será menor".
Dizia ele que a produção de veículos vinha crescendo 10,2% ao ano desde 2002, puxada sobretudo pelas exportações. "O grande crescimento entre 2002 e 2005 veio da exportação. Em 2006, há uma inversão desse padrão e o mercado interno ficou mais forte", dizia. Pois bem. O que se viu neste ano passou longe de uma freada na produção. Se um crescimento de 13,9% nos autoveículos (carros de passeio, comerciais leves, caminhões e ônibus) e de 36,7% nas máquinas agrícolas é uma freada, então não sei o que chamar de expansão.
Neste ano a indústria comemora um crescimento recorde: 27% nas vendas, que devem alcançar os 2,45 milhões de unidades. Para 2008, a entidade projeta um mercado interno de cerca 2,9 milhões de carros, comerciais leves, ônibus e caminhões. O setor de motocicletas também nada de braçada – é estimada uma produção de 1,7 milhão de motos, sendo 1,54 milhão para o mercado interno.
Dois fatores foram fundamentais para esse resultado: o primeiro deles, obviamente, foi o crescimento da economia. Mas salta aos olhos a facilidade do acesso ao crédito. Se anos atrás o prazo máximo para comprar um automóvel era de 36 meses, hoje já é possível adquirir um veículo em 84 meses (sete anos!). Como disse em discurso na Ford na última sexta-feira o presidente Lula, brasileiro não quer saber o preço do carro; importante é se a prestação cabe no salário. Assim o mercado automotivo cresce sem parar.
Bem, o ex-presidente da General Motors do Brasil e Mercosul, Ray Young, já criticou a fartura de crédito para comprar automóveis. Para ele, a extensão dos prazos são um problema. O executivo diz que comprar um carro em 48 meses "é o suficiente". Problemas advindos do excesso de crédito, por enquanto, são previsões. E quem acredita nelas?
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.
O colunista está em férias e volta a escrever regularmente no dia 22 de janeiro.
LEIA AQUI a coluna anterior: "Os sete pecados do mundo do automóvel".
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