Já abordei neste espaço a resistência que algumas marcas têm em convocar um recall. Antes que pensem que vou bater na Volkswagen por conta do episódio do banco do Fox, já adianto: a VW (ao lado de Citroën, Honda, Renault e Volvo) não é uma delas. A empresa é uma das poucas – e note que o número de empresas que o fazem pode ser contado nos dedos das mãos – que distribuem comunicados de recall à imprensa. Normalmente eles são publicados em jornais e nada de recebermos "press release" – a não ser que entremos em contato.
Em seu "Dicionário Ilustrado do Carro", Bob Sharp afirma, sobre recall: "O motivo da convocação sempre é um problema técnico que afeta a segurança, detectado na maior parte das vezes em veículos já nas mãos dos proprietários (...). Mesmo que pudesse ser uma atitude voluntária do fabricante, o Código de Proteção e Defesa do Consumidor obriga a um procedimento junto à Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, em que o problema deve ser minuciosamente detalhado".
Recall em geral diz respeito a problemas no freio, no cinto de segurança, no airbag ou no caso de mau funcionamento de determinado dispositivo, com risco de acidente ou incêndio. Não existe recall de banco rasgado ou de porta-luvas que não fecha. Nisso todos concordamos? Tudo bem.
Bem, a questão do Fox é diferente. O dispositivo levou risco à integridade física de pessoas, feriu alguns proprietários do modelo. Que o problema foi relatado em na edição de agosto de 2006 da revista "Quatro Rodas" e abordado novamente em "Época" da semana passada, já publicamos mais de uma vez em Interpress Motor. Alguém pode dizer que são oito pessoas feridas em 700 mil Fox produzidos. Está bem. Mas o que definitivamente eu não entendo é: por que a Volkswagen não vai a público e diz "sim, vamos fazer um recall"? A fabricante sofreria algum tipo de rebaixamento em algum ranking de qualidade? Afetaria a imagem da empresa? Acho que não, pois ela sempre fez os recalls necessários, como eu disse no início deste texto. Qual é a razão técnica para não haver recall agora?
Sim, eu acredito que o sistema do carro seja seguro e que os proprietários têm uma grande parcela de culpa ao não ler o manual do proprietário. Sabendo disso, inclusive, algumas marcas lançam resuminhos (como os que os cursinhos fazem das obras de Machado de Assis, sabe?) do manual e lança até formatos diferenciados – CD-ROM, DVD etc. Há, no entanto, uma ou outra situação potencialmente arriscada e como tal deve ser tratada. Ninguém questiona a seriedade de uma empresa que está no mercado brasileiro há 55 anos. Mas a peça que evita problemas no rebatimento do banco bem que poderia ter sido distribuída há mais tempo.
Se vamos chamar de recall, de recall branco, preto ou amarelo, não importa. O que interessa é que o problema finalmente está sendo solucionado. Vale aqui citar a definição de "recall branco" do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor): "Ele ocorre quando a marca detecta alguma falha de projeto ou fabricação relacionados à segurança e faz a troca da peça ou do produto na surdina, sem fazer uma campanha pública. Muito comum na indústria automobilística, as montadoras convocam os proprietários por meio de cartas simples ou nem isso: aguardam que um dia o carro seja levado à concessionária e só então fazem o reparo". Não é o caso, mas conheço outra interpretação: quando uma peça é reparada ou substituída sem que tenha sido anunciado um recall oficial. Mas não é o que importa.
Da mesma forma que a suspensão dos automóveis vendidos no Brasil têm de receber reforços para rodas nas péssimas condições de piso, é preciso lançar mão de antídotos para neutralizar certas deficiências sabidas do motorista brasileiro – o mesmo que não lê manual, não dá seta, não liga o farol alto, buzina onde não deve e bebe antes de dirigir. "Ah, então você está colocando a culpa em quem teve sua mão ferida?", pode perguntar o leitor. Não, não se trata de apontar culpados nessa história, mas apenas de deixar claras as responsabilidades de cada lado.
Porque recall é como o homem para o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Ele nasce bom, mas a sociedade o corrompe.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço. Nesta semana, excepcionalmente, a coluna é publicada na quarta-feira.
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