Todo ano a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) divulga o ranking das multas na cidade de São Paulo. Em primeiríssimo lugar ficam as autuações por desobediência ao rodízio de veículos – a tal operação Horário de Pico –, que já aplicou nos últimos 11 anos pouco mais de 7 milhões de multas, 1,38 milhão só no ano passado (leia aqui).
Pergunto: será que ser flagrado com o automóvel com final de placa "proibido" das 7h às 10h ou das 17h às 20h é mais prejudicial ao próximo do que andar em velocidade acima da permitida, estacionar em vaga de deficiente ou quase bater nos outros ao falar ao celular? Ou parar sobre a faixa, fazer conversão, dirigir bêbado ou mudar de faixa sem dar seta? Acho que não.
Sem falar que não posso afirmar fora de um espaço como este, destinado a dar opiniões, por não ter comprovação do ponto de vista estatístico. Mas minha impressão é de que a quantidade de motoristas que falam ao celular ao volante (só 6% dos mais de 4 milhões de multas paulistanas) é muito maior do que os que desobedecem ao rodízio.
O atento leitor dirá que sim, que a longo prazo os que saem de casa burlando o rodízio prejudicam o próximo, sim senhor. Pela poluição, pelos prejuízos, pelas vidas perdidas com a morosidade e a impotência que o trânsito cria. Mas defendo que o problema não é esse. Afinal já fui flagrado pela fiscalização por não conseguir adivinhar que um trajeto curto entre a avenida Paulista e a zona oeste de São Paulo (coisa de seis quilômetros) não seria vencido em menos de duas horas. Ah, o imponderável trânsito de São Paulo...
Ninguém perde horas de seu tempo dentro do carro parado em um engarrafamento porque quer. Por mais "atrações" que as empresas estejam criando para os motoristas dentro do carro – tema inclusive de reportagem do "New York Times" na última semana –, estar em casa, com família, mulher, filhos ou com os amigos é bem melhor que a solitária cabine de um veículo.
Na França, onde dirigi o Grand C4 Picasso para reportagem neste site (leia aqui), o pessoal da Citroën até estranhou a devolução do carro com três dias de antecedência. Sim, nas ruas de Paris paga-se 2 euros (quase R$ 6) por hora para estacionar, fora os estacionamentos com preços proibitivos, e a cidade, além de linda, é bem servida de metrô e ônibus – atualmente também de bicicletas que podem ser alugadas em um ponto da cidade e devolvidas em outro.
Para que vou ficar com o automóvel? Ele deve servir para o meu lazer, para o meu prazer, para a minha locomoção em horários menos favoráveis do transporte coletivo, a percursos e distâncias menos comezinhos do que o ir-e-vir do trabalho. Infelizmente no Brasil o transporte está nas mãos de um poder público no mínimo ineficiente, para não dizer suspeito. E a fiscalização está mais para arrecadar do que para civilizar. Pode até não existir indústria da multa. Mas que ela é pelo menos uma pequena empresa, lá isso é.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço. Nesta semana, excepcionalmente, a coluna é publicada na quinta-feira.
Coluna anterior: O recall e Jean-Jacques Rousseau.
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