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ARTIGO
Autogiro
Novos tempos, velhos golpes
O carro era flex, tinha 9.000 km e o consultor sugeriu limpeza preventiva de bico...
por LUÍS PEREZ
Luís Perez - foto Pedro Bicudo/DivulgaçãoAntigamente as concessionárias de automóveis eram tidas como meras tiradoras de pedidos em um mercado com poucas opções e quase nenhuma concorrência. Vendiam o carro zero e era nisso que ganhavam. Serviços? Pós-venda? Qual o quê! Ouvi histórias de pessoas que não conseguiram chegar ao posto de combustível após sair com o veículo novo da loja – quer pior experiência de pós-venda que essa!?

O tempo passou, as Big Four – quatro grandes montadoras, Fiat, Volkswagen, General Motors e Ford – tiveram de se mexer para enfrentar a concorrência tanto dos importados quanto das "newcomers", fabricantes novatas por aqui, notadamente as francesas (Peugeot, Citroën e Renault) e as japonesas (Honda e Toyota). Hoje o bolo está muito mais dividido, e a concorrência, atroz.

Por outro lado, o consumidor está muito mais bem informado. Quem não entende tanto assim de carro entra nos sites das marcas, nas revistas eletrônicas, pode comparar versões, dados específicos de fichas técnicas, entre outros detalhes sobre o modelo que pretende comprar. Algumas dicas de manutenção são marteladas à exaustão nessas mesmas publicações por especialistas do mercado. Na última semana, no entanto, tive uma prova de que nunca é demais alertar para velhos golpes que acreditava já terem caído em completo desuso. Enganei-me redondamente.

Acompanhei uma pessoa bem próxima a mim à primeira revisão de seu carro, um modelo flex, que está com pouco mais de 9.000 quilômetros rodados. Eis que o engravatado consultor técnico esclareceu cada item que seria revisado do veículo e depois, para minha surpresa, veio com a (pra lá de velha) conversinha: "Olha, nós recomendamos ainda três serviços que são pagos à parte: limpeza preventiva de bicos injetores, higienização do ar-condicionado e alinhamento e balanceamento. O primeiro sai R$ 150, o segundo, R$ 110, e o terceiro, R$ 115".

Alinhamento e balanceamento até que era algo factível... Entre 5.000 e 10.000 quilômetros, é algo recomendável. Mas, cá entre nós, é possível encontrar o serviço por menos. Só não acreditei na cara-de-pau de oferecer a higienização e mais pasmo ainda fiquei com a limpeza preventiva (!!!) dos bicos injetores.

Estou cansado de conversar com especialistas e escrever reportagens que apontam essa como a mais sórdida e batida prática de empurroterapia de que se tem notícia desde que inventaram a injeção eletrônica. Sério... Não sabia se ria ou se entrevistava o tal consultor. Não declino nomes ou marcas porque duvido que se trate de um fato restrito a uma pessoa ou empresa.

Sim, os bicos podem ter problema com combustível adulterado (mais provável que ocorra com gasolina). Mas dificilmente entopem em um carro que usa álcool 100% do tempo e é assim tão novo! Não é à toa que a reputação das autorizadas anda tão ruim. Vide o resultado parcial da enquete de Interpress Motor (leia aqui), em que mais da metade dos leitores votaram na opção segundo a qual as concessionárias "são careiras e costumam enganar o consumidor, empurrando serviços e produtos desnecessários".

Algumas marcas tentam reverter essa péssima imagem, lançando mão de revisões com preços fechados e busca de transparência total. Investem alguns milhões nesse trabalho, incluindo marketing e treinamento. Não adianta nada. Para ganhar R$ 150 numa limpeza preventiva de bico, um engravatado consultor técnico põe tudo a perder. Alguma razão deve ter. Aliás, a mais óbvia: ainda há quem caia nesse conto.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às terças-feiras neste espaço.


leia mais Coluna anterior: Vaivém, desinformação e lei da gravidade.

Publicado em 18/03/2008

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