Vou parafrasear o professor Pasquale Cipro Neto, que tive a oportunidade de conhecer recentemente: "Quando o assunto é segurança, sou um bicho raro" (leia aqui). Tenho discutido com parentes e amigos próximos sobre a importância dos equipamentos de segurança nos automóveis, uma batalha que me parece perdida. Depois de ter visto vários crash-tests, tanto pessoalmente quanto em vídeo, fico cada vez mais preocupado com o tema.
No entanto, a maioria das pessoas com quem converso não dá a mínima. Os equipamentos preferidos são sempre o ar-condicionado, a direção hidráulica e o trio elétrico. Depois começam a surgir bancos de couro, um som potente, rodas de liga leve e por aí vai. A alegação é sempre a mesma: "Ninguém compra carro para bater e eu sou um bom motorista". Pura ingenuidade. Se for assim, então vamos dispensar os medicamentos mais modernos, que são mais caros, porque ninguém vive para ficar doente.
No ano passado a Fundação Pro Teste fez um crash-test em um carro brasileiro que é exportado para a Europa e comparou os resultados com o mesmo automóvel vendido lá. O resultado foi bem desfavorável ao nacional, pois o veículo europeu tem airbags de série. Não é o caso de satanizar a montadora: as bolsas estão disponíveis como opcionais no Brasil, mas menos de 1% dos carros daquele modelo saem com o item. A culpa não pode ser atribuída à empresa (embora os preços pudessem ser menores). A culpa é do mercado, que não prioriza os itens de segurança.
Chegamos a um impasse. A tecnologia existe. Em Brasília há parlamentares que apresentaram projetos de lei para tornar o airbag obrigatório em todos os carros vendidos no Brasil. No entanto, o que se pode dizer de um povo que reclamou veementemente quando o Contran, em um momento de extrema lucidez, tentou proibir os engates? Se algum dos projetos de lei sobre o airbag for aprovado e sancionado, é provável que os preços dos automóveis sofram aumentos, o que será bastante impopular – ou seja, com os nossos políticos populistas, que não tiveram a coragem até hoje de implantar a vistoria obrigatória, a chance de esses projetos acabarem vetados ou engavetados é enorme.
Resta uma possibilidade. A partir de 2012, todos os novos veículos lançados no Brasil terão de passar, obrigatoriamente, por um crash-test bastante rigoroso, que vai avaliar, entre outros itens, a ancoragem dos bancos, a resistência do tanque de combustível e o índice de ferimentos aos passageiros. Os modelos que já estiverem à venda no mercado terão até 2014 para se adaptar. Os testes atuais para homologação dos veículos são bem menos severos. Comenta-se que somente carros com airbags conseguirão atingir as notas mínimas de segurança. Se isso acontecer mesmo, será uma boa notícia, ainda que haja reflexos no bolso do consumidor.
Falei bastante sobre airbags, mas há outro item bastante importante no quesito segurança: os freios ABS, que impedem o travamento das rodas. Seu objetivo não é reduzir o espaço das frenagens, como muita gente acredita. O dispositivo ajuda a manter o controle direcional do carro – útil, por exemplo, numa frenagem de emergência quando há um pedestre ou outro carro parado no meio da pista. Em pânico, geralmente o motorista pisa no freio até o fundo, travando as rodas. Nessa situação, é inútil girar o volante, pois o veículo desliza em linha reta. O ABS deveria também ser item de série. Mesmo que algum espertinho de plantão insista em dizer que ninguém compra carro para bater.
Eduardo Hiroshi é jornalista especializado em automóveis. Escreve sobre o mercado automobilístico às quintas-feiras em Interpress Motor.
Coluna anterior: A hora e a vez das picapes médias.
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