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ARTIGO
Pista Livre
Recado desagradável
Governo quer restringir crédito, mas medida é mal recebida pelo mercado
por EDUARDO HIROSHI
Eduardo Hiroshi - foto DivulgaçãoNa semana passada o governo federal deixou vazar propositalmente à imprensa a notícia de que poderia restringir o crédito. O primeiro setor afetado seria o automotivo, pois, na avaliação dos técnicos públicos, os prazos para financiamento de até 99 meses existentes hoje para a compra de carros zero-quilômetro são um perigo para a saúde dos bancos. Os ministérios da Fazenda e do Planejamento temem dois problemas: 1) a repetição de uma crise como a provocada pelos financiamentos imobiliários nos EUA; 2) o excesso de consumo poderá provocar inflação a curto prazo. A notícia, no entanto, caiu tão mal no mercado que o governo rapidamente saiu a campo para desmentir a informação.

Ainda assim há suspeitas no ar de que os homens do presidente Lula vão fazer algo a respeito. Há um desejo incontido de restringir o consumo, pois a capacidade industrial no país ainda não se adequou à nova realidade econômica. A primeira opção seria aumentar os juros, mas o Palácio do Planalto rejeita essa opção pela impopularidade da medida. A segunda seria restringir o acesso ao crédito, como se especulou, e que também se demonstrou impopular.

A solução é criar um pacote de incentivos à indústria, com redução na carga tributária (já que o governo não abre mão dos impostos atuais, poderia ser um desconto temporário). Quando as empresas estão convictas de que precisam investir, o dinheiro surge rapidamente. Há exemplos de fábricas que surgiram em menos de um ano. Exemplo: a linha de montagem de caminhões que a Volkswagen tem na cidade de Resende (RJ) foi construída em 153 dias. O fato é que, mesmo com os amplos investimentos anunciados desde o começo do ano passado, as montadoras ainda estão com medo de tomar outro tombo no Brasil, a julgar pela experiência dos últimos 20 anos.

Em outras palavras, pode haver atrasos nas construções e ampliações prometidas. Isso sim vai gerar ágio nos preços e, por conseqüência, inflação. De novo, o governo federal mostra um claro sinal de incompetência. A solução não é complexa, mas os políticos têm preguiça para implantá-la: redução da carga tributária, redução da burocracia e melhor comunicação entre os órgãos públicos, simplificação dos procedimentos para abertura e manutenção de empresas, melhoria das condições de infra-estrutura, em especial eletricidade, rodovias, ferrovias e portos. Não é óbvio? É óbvio. Mas, quanto mais óbvio para quem precisa, menos é para os políticos...

Há uma fábula para adultos que representa bem o momento que o país vive. Certo dia, uma floresta pegou fogo. Ali viviam muitos porcos. Os habitantes que moravam perto sentiram um cheiro desconhecido e, depois que o incêndio foi debelado, decidiram provar a carne dos animais mortos e assados. Como estavam acostumados a comer carne crua, adoraram a novidade. Desde aquele dia, a cada vez que a população queria comer carne de porco, incendiavam florestas inteiras. Até que, um dia, um homem chamado João Senso Comum apareceu na vila e disse que havia uma solução mais simples: matar um porco e assá-lo num pequeno forno. O responsável pelos incêndios respondeu: "Isso é impraticável. O que faremos com toda a estrutura atual?". Atordoado, João Senso Comum foi embora e nunca mais foi visto. É por isso que dizem que, em toda reforma de sistema, falta o senso comum.

Eduardo Hiroshi é jornalista especializado em automóveis. Escreve sobre o mercado automobilístico às quintas-feiras em Interpress Motor.

leia mais Coluna anterior: Hora do reclame.

Publicado em 03/04/2008

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