Para os nacionalistas de plantão, a próxima frase vai causar arrepios: os carros importados são importantíssimos para o Brasil. Mesmo sem gerar volume significativo de empregos diretos, eles contribuem para regular o mercado. As razões podem ser entendidas facilmente: os estrangeiros incentivam o fomento da tecnologia, ajudam a melhorar a qualidade dos automóveis nacionais e aliviam a fila de espera de determinados modelos muito concorridos.
Aos fatos: quando os militares proibiram a importação de automóveis, em 1976, dizia-se que era preciso incentivar a indústria nacional. Mas o que ocorreu nos 14 anos seguintes, até a reabertura do governo Collor, foi um show de horrores: os carros ficaram defasados e as fábricas se acomodaram. Para os jornais e revistas especializados, foi uma dificuldade encontrar assunto, pois houve o extremo de o país ficar três anos sem ver um carro totalmente novo sendo lançado!
Mais fatos: antigamente, quando um carro (fosse qual fosse a procedência) quebrava, era um Deus-nos-acuda. Hoje os automóveis são mais resistentes do que no passado, já que não enferrujam com facilidade e a injeção eletrônica exige menos manutenção do que os antigos carburadores, entre outros exemplos. Isso só foi possível porque a concorrência forçou o desenvolvimento de produtos melhores. O grande salto, no entanto, ocorreu justamente com a presença dos importados.
Ainda mais fatos: na atual fase do mercado, em que a falta de carros continua a assombrar os consumidores na forma de enormes filas de espera e de ágio, a presença de modelos fabricados fora do Brasil são um pequeno alívio, pois se o cliente não encontra o que quer, muitas vezes acaba comprando outra coisa. E essa "outra coisa" pode vir na forma de um carro coreano ou mexicano, para quem tem menos dinheiro, ou de um europeu, se tiver condições.
Vale lembrar que os importados também são importantes para as fábricas já instaladas aqui, pois é mais barato para elas trazer de fora determinados produtos com baixo volume de vendas. A Volkswagen, por exemplo, decidiu se especializar em carros pequenos e médios. Modelos de maior porte, como o Jetta e o Passat, não seriam viáveis economicamente para a empresa. O mesmo ocorre com a Ford (que traz o Fusion), a Chevrolet (e o Omega), e por aí vai.
Manutenção cara e difícil, poucas oficinas, seguro caro, risco de assalto? Sim, tudo isso ainda faz parte do dia-a-dia de quem compra um carrão gringo. Mas os benefícios podem valer a pena. A longo prazo sua presença é essencial para o bem do setor automobilístico e, por que não, para a economia do país.
Eduardo Hiroshi é jornalista especializado em automóveis. Escreve sobre o mercado automobilístico às quintas-feiras em Interpress Motor. Nesta semana, excepcionalmente, sua coluna é pubilcada na terça-feira.
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