Passo pela marginal Pinheiros, ali, pertinho da Daslu. A Daslu é uma loja interessante. Certa vez tive uma reunião de trabalho ali perto, pouco antes das 17h. Era dia de rodízio. A reunião foi até umas 18h. Fiquei preso por lá, com o carro em um estacionamento, e resolvi ir até a Daslu para conhecer. A pé. Os seguranças do lugar me acharam um pouco extraterrestre, mas devem estar acostumados com isso. Tive de preencher um cadastro para entrar a pé na loja. Nada demais, ainda mais para quem não se encaixa exatamente no perfil de alguém consumista.
Bem, mas a visita à Daslu não é o assunto da coluna. Notícia mesmo foi passar por lá num outro fim de tarde e o trânsito não parar no entroncamento com a avenida dos Bandeirantes, logo após o viaduto República da Armênia. À beira da via, vendedores de amendoim torradinho na hora, pipoca daquelas do saquinho cor-de-rosa (aquilo parece isopor doce...) e refrigerantes. Passei relativamente rápido, mas deu para perceber o semblante desolado do vendedor. Afinal, o trânsito não estava parado...
Fato é que o trânsito que custa alguns milhões aos cofres das grandes cidades alimenta a atividade econômica informal de um punhado de gente. Não, o vendedor não ficaria desolado por muito tempo. Fatalmente o trânsito iria parar, fazendo a festa dos que aproveitam sede e fome de quem fica com o carro parado na volta pra casa para faturar.
Então leio em Interpress Motor que a União Européia pretende fazer uma série de restrições às propagandas de automóvel. Seriam vetadas referências a velocidade e a "prazer de dirigir". Na hora me lembrei de Cazuza. "Meu prazer agora é risco de vida", "meu sex and drugs não tem mais rock and roll...", "meus inimigos estão no poder..." são algumas letras que me vêm à cabeça.
Cazuza morreu em 1990. Eu tinha 18 anos. O trânsito já era ruim. Nasci nos anos 1970, mais exatamente no último dia de 1971. Era criança na crise do petróleo, no milagre econômico. Nas manhãs mais frias ligara o carro do meu pai para esquentar. Puxava o afogador com a força que uma criança tem para tal...
Ninguém pensava em emissões de poluentes nem em impacto ambiental. Veículos híbridos eram uma pantomima. Agora alguns vêm querer mexer na nossa propaganda. Confio nos publicitários. Muitos têm idéias estúpidas e se acham geniais. Alguns, no entanto, são de fato geniais e vão saber bolar comerciais inteligentes ainda que sem poder falar em "prazer de dirigir".
O primeiro filme a ser vetado caso essa onda chegue ao Brasil seria aquele comercial do Volkswagen Golf, em que o menino dá um monte de voltas para ligar o automóvel à garagem. Os comerciais em breve vão ser obrigados a recomendar que se vá direto de casa para o trabalho e do trabalho para casa – o que já é sacrificante, por mais que haja vendedores de amendoim e refrigerante.
Minha modesta contribuição é sugerir que, antes que a moda da Europa chegue ao Brasil, o Conar regule os comerciais de carro. Que tal começar explicando que "o produto" (carro) é "destinado a adultos" (como ocorre nos comerciais de cerveja) e recomendando algo na linha: "Não dirija na contramão"? O bom senso agradece.
PS - Esta coluna volta após um tempo sem ser publicada. Em grande parte, devido ao furacão que foi, embora repleto de alegrias, a chegada da pequena Júlia. A idéia é ser regular de agora em diante, agora às quintas-feiras, uma vez que a coluna "Alta Roda", de Fernando Calmon, passou a ser publicada às terças.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às quintas-feiras neste espaço.
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