Nada como tempos de euforia de mercado e de produção crescentes para que temas sensíveis sejam discutidos de forma aberta e propositiva. É o caso da obrigatoriedade de haver bolsas de ar (airbags) em todos os automóveis fabricados ou vendidos no país. Há muito se esperava uma solução de consenso que não levasse ao repasse do aumento de custo e conseqüente retração nas vendas. O momento parece ter chegado.
Ainda neste ano, tudo indica, o Congresso Nacional deve aprovar a lei que colocará os airbags para motorista e acompanhante do banco dianteiro como equipamento de série para automóveis e seus derivados. Isso inclui picapes pequenas, mas provavelmente ficarão de fora outros veículos comerciais, como picapes médias e pesadas, além de furgões (inclusive a Kombi). Há dúvidas também sobre a inclusão de utilitários esporte que não sejam derivados de automóveis.
O projeto de lei originou-se no Senado Federal em 2004 e chegou à Câmara dos Deputados em agosto do ano passado. Entre os seus méritos está a implantação escalonada. No ano seguinte à aprovação da lei e regulamentação do Contran, 30% dos carros vendidos terão airbags de fábrica. Dois anos depois, a participação subirá para 50%. Haverá novo prazo de dois anos para atingir a totalidade das vendas.
Na realidade a lei apenas sanciona por etapas outra regulamentação, de janeiro de 2007, do próprio Contran e da Associação Brasileira de Normas Técnicas. A exigência de critérios biomecânicos de segurança para os ocupantes dos veículos, no teste de impacto contra barreira fixa, obrigará, na prática, que os fabricantes instalem proteção passiva, além dos cintos de segurança. Portanto, as bolsas de ar estarão, de qualquer forma, em todos os projetos novos em 2012. Em 2014 os projetos antigos (anteriores a 2007) não-enquadráveis terão que sair de linha, casos do Gol e Mille hoje fabricados.
Neste ano os airbags já equiparão perto de 30% dos automóveis comercializados. Assim, a indústria reúne condições de cumprir o cronograma com folga. E a produção futura, no nível próximo a 5 milhões de unidades anuais, atingirá escala suficiente para manter os preços inalterados.
Outro ponto positivo é o interesse da indústria de autopeças. Há três fornecedores nacionais do sistema de airbags: Autoliv, Takata Petri e TRW. A última decidiu investir em comunicação sobre o funcionamento e as vantagens das bolsas, em três didáticos filmes publicitários, ressaltando também o papel fundamental dos cintos. Sem o uso destes, a eficiência dos airbags torna-se quase nula. Sempre é bom relembrar: sobrevivência, em acidente que seria fatal, depende 75% dos cintos e 25% das bolsas. Em termos de segurança, dupla inseparável. Mais que isso, indissociável.
E ainda há conquistas à frente. Mecanismo de retração por controle ativo dos cintos, criado pela TRW, corrige de forma contínua o posicionamento dos ocupantes para melhor funcionamento dos airbags. Esperam-se também outros fabricantes, a exemplo da Citroën, utilizando volante de direção com cubo fixo: permite formato anatômico da bolsa de ar do motorista, inflando sempre na posição ideal.

Roda Viva
AGORA a Ford anuncia o que já se sabia: produzirá nova família Fiesta no México, no começo de 2010, para o mercado local e EUA. Investimento, incluindo fornecedores, será de festivos US$ 3 bilhões, o maior já feito lá. Para o Brasil, espera-se, ao menos, a produção da versão hatch desse impactante compacto. E uma ponta de frustração, por perder a maior parte do investimento.
GRUPO Peugeot Citroën terá 12 novidades fabricadas no Brasil e Argentina, deste ano a 2011. Metade delas faz questão de esconder, mas dá para antecipar todas. Peugeot terá os 207 (corretamente, 206 e meio) hatch, station, sedã e picape; 308 hatch e sedã; Partner reestilizado. Citroën vai de C4 hatch, C3 retocado, dois monovolumes derivados deste (normal e versão aventureira) e Berlingo evoluído.
RODAR por uma semana com o novo Corolla basta para comprovar qualidades dinâmicas ímpares. Em especial, um dos melhores acertos de suspensões já vistos no país, mesmo sem esquema independente na traseira. Câmbio automático reconhece subidas e descidas, evitando trocas desnecessárias. Com gasolina, o motor é menos brilhante que antes. Falta alguma ousadia no interior.
FILÃO dos microcarros floresce com o preço alto do petróleo e não pára de atrair interessados. BMW estuda a leitura moderna do Isetta, fabricado no Brasil pela Romi, de 1956 a 1961. Carrinho também foi produzido na Alemanha e Itália. Fiat promete reviver o Topolino, de menos de 3 metros de comprimento, 3+1 lugares, derivado do atual Fiat 500.
INJEÇÃO eletrônica chega de forma tímida às motocicletas. Honda Shadow é o terceiro modelo nacional, depois da Yamaha XT 660R, à venda desde março de 2005, e da recém-lançada Honda CB 600F Hornet. Motos de menor cilindrada cumprirão a norma antipoluição de 2009 com catalisador melhorado, mantendo o velho carburador. Estampidos no escapamento, provocados por maus motociclistas, continuarão?
Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1994-1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (até 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1990), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "Just Auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.
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