Ao longo do teste de "Um mês com..." o Citroën C4 Pallas que fizemos, recebemos 151 mensagens, digamos, conseqüentes de leitores. Algumas pró, outras contra, diversas isentas, mas boa parte delas com observações bem pertinentes. Contudo nem todos os missivistas se tocaram que, no início do teste, quando citamos o consumo instantâneo de 4 quilômetros por litro assinalado pelo computador de bordo, era uma marca que mostrava quanto é severo o uso do carro na cidade.
Poderia ser pior. Há casos em que computadores de bordo marcam, no anda-e-pára de trechos urbanos congestionados, marcam algo como 2 ou 3 km/l. Perfeitamente normal. Da mesma forma, o equipamento pode marcar, caso o motorista coloque o carro em ponto morto em velocidade de cruzeiro numa rodovia (algo definitivamente desaconselhável), mais de 100 km/l. Possível? Claro que não. Mas ele está marcando o consumo instantâneo, não o médio!
Digo isso para entrar em outro assunto: no Brasil, nem todas as fabricantes divulgam dados de consumo (quanto o carro gasta na cidade, na estrada ou em trechos mistos) e desempenho (aceleração de 0 a 100 km/h e velocidade máxima). Política interna? Pode até ser. Mas ouvi outro dia o executivo de uma montadora ponderar outra razão: alguns consumidores simplesmente entram com processo contra a marca porque seu carro não apresenta aquele desempenho alardeado, seja no site, no folheto ou mesmo no material de divulgação reproduzido pela maioria dos órgãos de imprensa – são poucos os que levam o automóvel para a pista.
Quem está com a razão? Ninguém. Ou, pensando melhor, os dois lados. Sim, se a fabricante realiza testes, que mal há em apresentá-los ao consumidor? Basta deixar claro, por exemplo, que aquele resultado do 0 a 100 km/h foi obtido por um piloto capacitado com testes feitos, se for o caso, ao nível do mar, onde os motores rendem mais, o que não configura propaganda enganosa. Ou que aquele consumo em trecho urbano não foi obtido justamente na hora do rush.
Esses dados poderiam estar de forma clara em todo o material que os alardeiam, não naquelas letras miúdas ridículas que aparecem durante um segundo ou menos em um ou outro comercial de carro na TV. Preveniria eventuais processos – afinal, o consumidor teria de provar que utilizou o carro em determinadas condições preconizadas pela fabricante.
Tudo bem que o consumidor não pode esperar de um automóvel 2.0 o mesmo nível de consumo de um 1.0. Da mesma forma que, na situação inversa, não pode esperar o mesmo desempenho. Mas o acesso à informação é importante para a decisão de compra – e o consumidor tem todo o direito de saber. E você, o que acha? Responda aqui.
Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às quintas-feiras neste espaço.
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