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OPINIÃO
08/08/2008 - 19h30
Autogiro
O argentino anda triste
Algumas impressões (ainda) sobre a viagem entre Argentina e Brasil
por LUÍS PEREZ
Luís Perez - foto Pedro Bicudo/DivulgaçãoDemorei a voltar a escrever, resultado do ritmo absolutamente frenético de lançamentos e novidades neste ano. Hoje quero falar sobre os argentinos. Sim. Os argentinos estão tristes. Desconfiados. E muito, eu diria. Pela segunda vez na vida, vim dirigindo um carro da capital argentina até São Paulo. A primeira fez foi por ocasião do lançamento do Ford Focus, há oito anos. Os argentinos estavam tristes. Sua economia estava falsamente dolarizada, e o euro ainda era um bebê. Por isso nossos amigos do país vizinho ainda andavam orgulhosos, sobretudo na capital federal. Mas no interior do país a desigualdade e a pobreza saltavam aos olhos. Era um prenúncio do abismo econômico no qual caíram em 2001.

Com orçamento limitado (como sempre, aliás), minha maior preocupação naquela época era sair logo da Argentina, onde um peso valia um dólar, moeda cara demais para nós na ocasião. Como o Focus tinha placa da argentina e eu não era argentino (continuo não sendo...) nem domiciliado no país, fui barrado em duas fronteiras – apesar de a documentação providenciada pela Ford estar impecável, responsabilizando-se completamente perante a aduana. Tentei sair por Paso de Los Libres-Uruguaiana, mas fui barrado. Nova tentativa em Santo Tomé-São Borja, outro "não". Em Puerto Iguazu-Foz do Iguaçu, finalmente deixaram-me passar.

Dessa vez voltei de Citroën C4 Pallas, com placa de São Paulo. Quando deixei Buenos Aires, minha maior preocupação era permanecer ao máximo em solo argentino. O dólar hoje vale mais de três pesos, e a moeda do país vizinho está barata para nós, em que pese a inflação que por lá já galopa. Mas mudei de planos no meio do caminho, quando constatei, mais uma vez, que o argentino anda triste. Cabisbaixo. Desconfiado. Escaldado.

Para a reportagem, fui fotografar o C4 Pallas abastecendo. "Não pode fotografar aqui", disse o frentista. Eu: "Mas por quê?". Ele: "Porque não é permitido". Antes de criar caso (adooooro), resolvi acatar o tal pedido. Gosto de arenga (ia argumentar que não vi placa nenhuma, que o que não é explicitamente proibido é permitido sim, coisa e tal), mas já havia feito as fotos mesmo. Só fiquei pensando: por que tanta nóia?

Na estrada os postos não aceitavam cartão de crédito ou de débito. Argentinos me contaram que muitos estão comprando imóveis (todos por lá são cotados em dólar, embora tal prática seja proibida), carros e moeda norte-americana para guardar literalmente dentro do colchão.

Ninguém quer deixar dinheiro em banco, reprise de um filme que já passou aqui. "Aqui só aceitamos dinheiro vivo. Peso ou dólar", avisou um frentista. "Aceita reais?", perguntei, pois estava com bastante dinheiro brasileiro na carteira. "Não. Dólares ou pesos." Certamente sem saber o quanto o real tem valorizado ante ao dólar.

Não me agrada nem um pouco ver a Argentina triste. Em que pese uma ou outra falta de empatia, Buenos Aires é uma cidade absolutamente fantástica e muito segura, o argentino médio é anos-luz mais culto do que o brasileiro e, para não fugir muito ao tema automóveis, sim, nós dependemos muito uns dos outros. No momento em que o mercado interno brasileiro nunca consumiu tantos carros, o parque industrial argentino se mostra uma achado. Bom para os dois lados, não é mesmo?

Procurei deixar logo o solo argentino. Com pesar. Não que o país estivesse caro demais, mas não tinha peso nem dólar suficientes caso ninguém mais aceitasse dinheiro de plástico. Fora o nó na garganta, atravessei a fronteira sem nenhum problema, já a partir de Paso de Los Libres. Aliás, sem nem descer do carro. Em vez de rasgar o Paraná de oeste a leste, resolvi fazê-lo no Rio Grande do Sul. A aventura completa você confere aqui. Já estou com vontade de voltar a Buenos Aires.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às quintas-feiras neste espaço. Hoje a coluna é publicada na sexta-feira.

leia mais Coluna anterior: As marcas podem omitir dados de desempenho?


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