Encarar os novos desafios pode não ser tão difícil quanto eleger o caminho mais correto e persistir. A indústria automobilística mundial está perto de uma encruzilhada. Precisa conciliar o crescimento acelerado dos países emergentes com as exigências dos mercados maduros. Estes, além da tendência de estagnação, precisam de novas soluções para depender menos do petróleo e cuidar melhor do meio ambiente.
No simpósio "Tendências e Inovação no Setor Automotivo", realizado pela SAE Brasil nesta semana, em São Paulo, ficou claro que as alternativas existem, porém não há solução pronta nem universal. Cada fabricante tem saídas próprias e apostas diferentes. É provável que convivam. Bastam dois exemplos: a BMW é a única que insiste na utilização do hidrogênio nos atuais motores de combustão interna (Ford a segue de longe); Renault-Nissan investe em carros elétricos com baterias para aplicações específicas em países como Israel (larga escala), Portugal e Dinamarca, a partir de 2012.
Jaime Ardila, presidente da General Motors do Brasil e Mercosul, explicou que a matriz vê mais de uma solução nos EUA. Até 2009 terá nove modelos híbridos no mercado. Em 2012 todos os motores lá produzidos serão flexíveis para funcionar com gasolina ou E85 (85% de etanol e 15% de gasolina). No segundo trimestre de 2011 (um ano de atraso), chegará o Volt, um carro elétrico com bateria de íon de lítio e um motor a combustão exclusivamente para recarregar a bateria.
Mesmo a solução híbrida apresenta opções. Como a palavra está na moda, o jargão técnico considera três níveis e os respectivos custos: híbrido micro, US$ 600 (desliga e liga o motor; recupera energia em frenagem); híbrido moderado, US$ 2.500 (alternador reversível que gera pequena potência elétrica adicional); híbrido total, US$ 6.000 (conjunto de motores elétrico e de combustão).
Testes feitos nos EUA comprovam que a viabilidade financeira do híbrido total se dá no uso intensivo em cidades. O SUV médio Lexus RX 400h proporciona redução de consumo de gasolina de apenas 2% no uso em estradas. Já a cidade de Nova York exigirá que táxis sejam híbridos, mais caros porém viáveis em gasto de combustível e emissões.
A Fiat Powertrain Technologies está próxima de viabilizar seu motor de 2 cilindros Multiair, conforme revelou João Irineu Medeiros. "Eliminamos a borboleta de aceleração e o comando de válvulas de admissão. Com turbocompressor e injeção direta, o Multiair a gasolina poderia ser de 20% a 25% mais econômico, quase igual a um diesel", adiantou. Deve entrar brevemente em produção na Itália com 900 cm³ e até 105 cv. Cogita-se a sua produção no Brasil.
Segundo Win van Acker, da consultoria Roland Berger, em Troy, Michigan (EUA), o tipo de uso (cidade, estrada ou misto) e as distâncias médias anuais percorridas orientarão as escolhas futuras. "Motores de combustão interna ainda têm muito a oferecer antes da era dos híbridos e dos elétricos a bateria ou a pilha de hidrogênio. Haverá espaço ainda para pequenos fabricantes especializados voltados à eletricidade", frisou.
Com tantas opções, as decisões tornam-se ainda mais complexas. E sem tempo de parar e pensar.

Roda Viva
REAÇÃO forte e conjunta dos fabricantes e concessionárias praticamente afastou as ameaças de aumento de impostos em nível federal (leasing) e estadual (ICMS). Visão curta e imediatista de governantes é incompatível com pesados investimentos, em gestação, de US$ 23 bilhões no período 2008/11. Quebra de regras abala qualquer índice de confiança. Lição aprendida?
SUZUKI volta ao Brasil por meio do Grupo Souza Ramos (GSR), que também representa e produz veículos Mitsubishi. Poucos sabem negociar tão bem com os enigmáticos japoneses. Ênfase inicial nos utilitários Grand Vitara (nova geração), Jimny e possivelmente XL-7, de maior porte. Automóveis, também nos planos. Nenhuma operação industrial a vista, garante Alexandre Câmara, do GSR.
ACERTO do motor voltado à pura economia de combustível (valores iguais de potência e torque, mas poderiam ser maiores), pneus mais leves e ajustes dos ângulos de suspensão dão potencial de redução de até 10% no consumo do Uno (de novo) Mille Economy. Uso paciente do econômetro no painel alçaria o ganho a 20%, segundo a fábrica. Dirigibilidade e conforto de marcha, mantidos.
NOVO Nissan X-Trail demorou demais a chegar do Japão. Preço a partir de R$ 95 mil sofre com pesado imposto de importação. É um 4x4 engatável por botão no console, bem equipado (generoso teto solar, faróis integrados ao rack) e bom acabamento. Perdeu em desempenho ao trocar o motor 2,5 por 2-litros. Estilo tem curvas em demasia, sem chegar a comprometer.
RADARES fixos, além dos móveis, são agora 25 na rodovia Rio-São Paulo (via Dutra). Estranho é impor limite de 40 km/h, igual para automóveis e caminhões, em trechos de descida da Serra da Araras. Traçado antigo, de fato, exige cautela, mas a velocidade imposta está fora da realidade. Contraproducente, irrita até o motorista mais pacato.
Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1984 a 1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (1967 a 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1994), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "just-auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.
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