A tese da blindagem da economia brasileira frente à crise financeira e econômica mundial revelou-se desprovida de sensatez. Os efeitos mais visíveis se deram na fraqueza do mercado interno de veículos, com quedas expressivas – na faixa de 25% – tanto em relação a outubro deste ano quanto a novembro de 2007. As explicações são simples: represamento do crédito ao consumidor nos bancos, forte desvalorização dos carros usados e, claro, insegurança gerada pelo noticiário sombrio vindo do exterior.
Pode servir de consolo talvez o fato de que 2008 será o melhor da história do setor em vendas – crescimento de 14% – e também em produção. Em novembro passado, por exemplo, passou despercebido que a produção acumulada (inclui exportações) rompeu pela primeira vez a barreira de 3 milhões de unidades, devendo fechar o ano com 3,240 milhões de veículos. Ainda em novembro último, com três dias úteis menos que outubro, a média diária de vendas caiu 14%, um resultado ainda ruim, porém menos impactante em relação aos 25% com os efeitos da sazonalidade.
O dado de fato muito preocupante é o número excessivo de veículos em estoque, sem compradores, nos pátios das fábricas e concessionárias. O volume normal, entre 25 e 30 dias de vendas, saltou para 56 dias no final de novembro. Infelizmente foi muito difícil fazer um pouso suave em meio à tormenta. Isso se deve em grande parte à irresponsabilidade com que o governo federal tratou da gravidade da crise.
Logo se viu que o Brasil não sentiria apenas o efeito de "marolas" vindas do exterior. Lamentável também é a falta de equilíbrio e o voluntarismo do presidente da República. Não se vencem dificuldades só com discursos e piadas de mau gosto. Em uma posição mais humilde poderia explicar que, da mesma forma que o Brasil se beneficiou dos ventos a favor e do pretenso "cassino" financeiro mundial dos últimos anos, chegou a hora de refletir sobre as mudanças de panorama e se preparar para a tempestade.
Este mês de dezembro está sendo marcado por uma pequena reação do mercado. As vendas devem superar as de novembro graças à fluidez discreta do crédito, mais dinheiro na economia e um pouco de descontração da demanda reprimida. Com as extensas férias coletivas nas fábricas e nos fornecedores – até 50 dias –, espera-se chegar a um nível de estoque administrável ao longo do primeiro trimestre de 2009.
A complicação maior está em tentar prever até onde os problemas podem chegar e quando se iniciará a recuperação. Rigorosamente, ninguém ousa dar essas respostas. Na média das opiniões ouvidas pela coluna, talvez em meados de 2009 já se possa enxergar alguma referência confiável. Para a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), como análise preliminar, se os números finais de 2008 se repetirem em 2009, ou seja, crescimento zero, "já estará muito bom".
Na realidade as incertezas atuais podem fazer descolar a relação positiva histórica entre o crescimento da economia e do mercado de veículos. Se isso acontecer de forma acentuada, afetará investimentos já aprovados e em curso. Além de trazer, outra vez, o aspecto bastante penoso de diminuição do nível de emprego, algo que parecia distante.

Roda Viva
PLANOS de produzir no Brasil a sexta geração do Golf, lançado neste ano na Europa, não foram cancelados, mas podem desacelerar. Ficará diferente do modelo original, salvo dimensões e estilo, em 2010. Já se concebeu essa nova geração, ao contrário do Golf 5, com simplificações aplicáveis em mercados sem o mesmo poder aquisitivo dos europeus.
A PARTIR de 1º de janeiro, os Detrans (Departamentos Estaduais de Trânsito) começam o programa nacional de lacres eletrônicos, versão moderna das antigas plaquetas que indicavam o pagamento dos impostos e o licenciamento anual. Em 1997 existiu um selo no pára-brisa com a mesma função. Espera-se assim controle maior da frota. E menos incômodo nas barreiras de controle para quem paga em dia.
AINDA não foi dessa vez que a Ford conseguiu aumentar a participação do Focus sedã em relação ao hatch. Primeiras vendas dão conta que esta versão manteve quase dois terços de preferência. O novo Focus é um carro espaçoso, com dirigibilidade ainda melhor e mais equipamentos. O hatch tem linhas equilibradas, ótimo porta-malas e se destaca no cenário desatualizado dos médio-compactos.
CITROËN pode expandir para outras localidades – além do bairro da Vila Madalena, zona oeste de São Paulo – a ação de transporte de clientes de bares e restaurantes insatisfeitos com os rigores da nova lei sobre abusos no ato de beber e dirigir. Se existirem associações organizadas e ajuda de parceiros, outras capitais também deverão ser atendidas em 2009.
PNEU furado é um grande incômodo, especialmente em viagens. Se isso ocorrer e, na pressa, se fizer um conserto provisório, do tipo macarrão, deve-se providenciar logo a solução definitiva. A maioria dos fabricantes de pneus já não recomenda reparos a quente e sim plugues de borracha, com todos os cuidados de limpeza e tratamento do furo.
Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1984 a 1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (1967 a 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1994), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "just-auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.
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