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OPINIÃO
29/01/2009 - 17h30
Autogiro
O ritual do exame de moto
Para boa parte dos jovens, a prova prática significa muito mais
por LUÍS PEREZ
Luís Perez - Pedro Bicudo/DivulgaçãoCostumo brincar que aprendi a pilotar motocicleta depois de velho. Sim, tinha já meus 29 anos quando fui frequentar as aulas da auto-escola para tirar a carteira "A". Lá se vão alguns anos e não me lembro direito do processo, nem se ele mudou muito. Recordo que foram 15 aulas, mas o que mais me preocupava era a parte prática. Ao contrário de muita gente que vai tirar a carteira de motociclista, eu não tinha a mínima idéia de onde se ligava a moto. Que dirá acelerar.

Uma das primeiras perguntas que o instrutor lhe faz é se você sabe andar de bicicleta. Pode parecer bobagem, mas quem anda de bicicleta já domina os fundamentos do motociclismo. A moto é uma bicicleta que dispensa o ato de pedalar, uma ode à preguiça. No começo eu achava que pilotar motocicleta requeria algum esforço físico. Bobagem... Na moto você só queima calorias quando é surpreendido por um temporal com frente fria, como aconteceu comigo no final do ano passado, quando, a convite da Honda, um grupo de jornalistas fez um passeio de moto até Guararema (SP), para um almoço de confraternização. Na volta fiquei ilhado por uma hora e meia sob a ponte do Jaguaré, já em São Paulo.

A rodovia Carvalho Pinto é um tapete. Poucas podem ser melhores para um passeio de moto. Mas fiquei para trás em diversas ocasiões. Não por medo de ir mais rápido, mas por pavor de levar a terceira multa seguida em rodovia por excesso de velocidade em 20 dias. Sim, as placas indicavam 110 km/h de máxima e eu ia a 100 km/h, às vezes esticando, mas nunca ultrapassando o limite. Perdi há tempos o medo de viajar de moto por boas estradas. Além de muito prazeroso, é de longe mais seguro do que ir até a esquina no caótico trânsito da cidade.

Mas, voltando às aulas de auto-escola... O exame prático é o momento crucial em que, em poucos segundos, os futuros motociclistas (ou não) têm de provar se estão ou não aptos a receber o carimbo "Aprovado" e a ganhar a tão sonhada autorização para pilotar uma moto. Os semblantes estão tensos, os olhos, arregalados. A impressão que dá é de que não é para o examinador do Detran que o jovem de 18 anos precisa provar que é capaz, mas sim para seus pares. Hora do exame prático. Curvinha fechada para cá, curvinha para lá, o famoso "oito", o slalom... Não se pode esquecer de atar o capacete, de acender o farol, é proibidíssimo colocar o pé no chão e um tranco de marcha engatada errado é quase fatal.

Fui bem no exame, passei de cara, mas a anos-luz de estar pronto para enfrentar as armadilhas das ruas. Os maiores inimigos dos motociclistas não são os motoristas, mas os outros motociclistas... Naquele longínquo dia de exame, os rostos de insegurança, apreensão e um quê de pavor nunca mais saíram de minha lembrança. Para quantos aquela carteira de motociclista não significava uma renda a mais para a família ou sua própria independência financeira? O sonho de uma vida melhor, de um casamento com a namorada... Impossível não ser contaminado, às portas dos 30 anos, por aquele turbilhão de sentimentos dos mais desordenados. Dias depois recebi minha carteira. Hoje brinco que, por ser tão antiga, é categoria "AC".

Luís Perez
é jornalista e edita o site Interpress Motor. Escreve às quintas-feiras neste espaço.

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