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OPINIÃO
17/03/2009 - 15h24
Alta Roda
Sintonia fina
Capacidade de recuperação do mercado de automóveis é surpreendente
por FERNANDO CALMON
Fernando Calmon - foto DivulgaçãoA reação positiva das vendas neste mês comprova o acerto da redução da carga fiscal sobre os veículos, mesmo que por um trimestre. A prorrogação até 30 de junho, pelo menos, só será anunciada no final de março a fim de evitar perturbações no mercado. É nítido o processo de sintonia fina entre o governo e a cadeia de produção automobilística em um momento de pessimismo gerado pela divulgação da brutal queda de 3,6% da economia brasileira no último trimestre de 2008. O presidente do Sindipeças, Paulo Butori, chegou a reivindicar na semana passada que a diminuição do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) continue até o final do ano.

Numa análise fria, o Brasil deve entrar tecnicamente em recessão no fim de março. Isso ocorre quando há crescimento negativo do Produto Interno Bruto (soma de tudo que um país produz) por dois trimestres seguidos. A retração do primeiro trimestre de 2009 será bem menor, mas se repetirá. Não significa que o ano fechará negativo, porém fica cada vez mais claro que o crescimento estará perto de zero, segundo a maioria dos economistas. Dentro do contexto mundial até será um resultado razoável, frente a outros países. No entanto, a crise atingiu o país de forma intensa, comprovando que mensagens de falso otimismo do governo só atrapalham.

De outro lado, a capacidade de recuperação do mercado de automóveis é surpreendente. Demonstra que o consumidor enfrentou um longo período de demanda reprimida (1998 a 2003) e mesmo assim ainda sonha com o carro próprio. A importância dos financiamentos permanece fundamental ao combinar prazos mais longos e taxas de juros contidas. Até setembro do ano passado, a prestação média era de R$ 787/mês. Hoje alcança R$ 955, o que explica o encolhimento das vendas, reflexo de prazos menores e juros mais altos.

A inadimplência subiu, empurrada em grande parte pelo aumento de desemprego. Entretanto, está longe de se caracterizar um fator de alto risco, como ocorre nos EUA. A proporção de prestações atrasadas acima de 90 dias superou 4%, próxima das médias históricas. Como o mercado cresceu muito, os veículos retomados, também. Nada de desesperador. O impacto severo da crise acontece, de fato, na desvalorização do carro usado. Trata-se de um problema espinhoso de curto e médio prazos.

Alguns sinais de mudança, porém, surgem em São Paulo, praça que influencia todas as outras. Os lojistas retomaram, timidamente, a compra de modelos usados para recompor estoques, sem obrigação de troca. Ou seja, a liquidez começa a voltar, embora ainda sem reação das cotações. O Banco do Brasil abriu linha de crédito para revendedores independentes reforçarem o capital de giro, o que ajuda a destravar o mercado, em especial de seminovos.

A cada carro novo, três usados são vendidos. Se estes tiverem seus preços tão depreciados como hoje, fica difícil o retorno à normalidade. Um fenômeno interessante, todavia, vem sendo detectado. A concorrência está levando a uma valorização do usado de marca diferente da concessionária que recebe o automóvel na troca por um novo. Quem está disposto a mudar de fabricante pode aproveitar: há tendência de o concorrente pagar melhor pelo seu usado.

Roda Viva

HATCHES médio-compactos, antes com poucas novidades, foram reforçados pela chegada do Citroën C4. Além de rejuvenescer a oferta, graças ao estilo moderno, oferece relação preço-benefício surpreendente em toda a gama da faixa de R$ 50 mil a R$ 70 mil. Destaques: compromisso estabilidade-conforto das suspensões e volante de cubo fixo (permite otimizar forma do airbag).

MERCEDES-BENZ dispõe na versão cupê do Classe C, produzido apenas em Juiz de Fora (MG), de um produto bastante competitivo. Sucessor do Sports Coupé, o CLC evoluiu técnica e estilisticamente, a um preço atraente de R$ 125 mil. Tem direção de respostas rápidas e ótimo acabamento. Motor de 1.8/184 cv com compressor ficou mais potente e silencioso.

HONDA prevê que metade das vendas de sua moto-chefe CG 150 será do modelo Mix, primeiro produto com motor flex (etanol-gasolina) no mundo. A fábrica decidiu por sua própria engenharia executar as mudanças necessárias. Em dias frios há que se colocar até três litros de gasolina no tanque, caso se dê preferência a consumir etanol. No Norte e Nordeste, clima quente, dispensa.

CONTINUA confusa a inspeção ambiental em São Paulo. Reprovação muito alta de motocicletas levou a modificação de critérios, alegando-se combustível adulterado, o que é incorreto. Já apenas 1,6% dos automóveis apresentou problemas e não se informa o percentual para aqueles até três anos de produção: provavelmente zero. Perda de tempo e dinheiro.

QUEM tiver curiosidade de conhecer os 50 piores automóveis da história, no entender da revista "Time", pode checar em www.time.com/time/specials/2007/completelist/0,,1658545,00.html . A lista começa em 1899 e chega aos dias de hoje. A coluna concorda integralmente com a lista. Talvez aumentada...

Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1984 a 1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (1967 a 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1994), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "just-auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.

leia mais COLUNA ANTERIOR: Legislando para a plateia.

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