Depois de quase três anos de espera, finalmente o Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular começou na sexta (17), de forma ainda tímida. Vários órgãos governamentais movimentaram-se para implantar esse controle de consumo de combustível que há muito deveria ter sido objeto de atenção. A operacionalidade coube ao Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) com apoio institucional do Conpet (Programa Nacional de Racionalização do Uso dos Derivados do Petróleo e do Gás Natural) vinculado à Petrobras.
Em meados da década de 1980, o Ministério das Minas e Energia havia lançado o PECO (Programa de Economia de Combustível) com metas de melhoria nos motores. Na época os quatros únicos fabricantes de automóveis aderiram e cumpriram os objetivos. Pena que durou apenas três anos. O assunto só voltou à baila no Salão do Automóvel de São Paulo em 2006. Sofreu atrasos burocráticos e suscitou muitas discussões sobre o enquadramento dos modelos por categorias: subcompactos, compactos, médios, grandes, esporte, fora-de-estrada e picapes. O critério é a área projetada no solo. A indústria atribuiu parte do atraso ao início, em 1º de janeiro, da fase atual de controle de emissões veiculares.
O PBVE não estabelece redução de consumo, mas aposta que exigências do consumidor farão com que as fábricas se mexam para ajustar os motores. O Brasil era o único país com um mercado de peso – sem a crise econômica estaríamos acima de 3 milhões de unidades anuais – onde a maioria das empresas não informava dados de consumo. Alegavam sofrer questionamentos na Justiça sobre os indicadores obtidos nas bancadas de testes em relação à vida real.
Trata-se mais de conveniência do que justificativa. Tanto que a ENCE (Etiqueta Nacional de Conservação de Energia) traz em destaque que se trata de valores referenciais medidos em laboratório. Pela repetibilidade é o melhor instrumento de comparação. A coluna defende que a ENCE deveria ser obrigatória, a exemplo de EUA, China e Japão (em outros países é voluntária, como aqui). Mas tem o viés positivo de mostrar agora quem desrespeita o consumidor. Além de todos os importadores (salvo a Kia), sonegam informações Citroën, Ford, Mercedes-Benz, Mitsubishi, Nissan, Peugeot, Renault e Toyota. O Inmetro divulgará os consumos em outubro de cada ano (agora ocorreu uma prévia). Haverá adesões no segundo semestre.
Na escala do melhor (nota A) para o pior (nota E), Gol (1.0), Fit (motor 1.4, manual), Mille (1.0), Picanto (1.0) e Polo Bluemotion (1.6) foram campeões. Estão mal na foto (E): Palio (1.4 e 1.8), Idea (1.4), Siena (1.8). A Volkswagen saiu-se claramente melhor. A Chevrolet, na intermediária (C). No total, 24 de 31 modelos já podem usar a etiqueta.
Os resultados – hora da verdade – desmistificam que um motor de apenas 1 litro de cilindrada é, de fato, vantajoso em relação ao de 1,4. Considerando a relação desempenho/consumo, o de maior cilindrada mostra-se adequado. O Mille é exceção por se tratar de um carro de menor peso e poucos opcionais. Também refletem que uma carroceria monovolume ou mais pesada cobra seu ônus em termos de consumo.
Roda Viva
BRASIL subiu uma posição no ranking mundial de vendas de veículos, ao final do primeiro trimestre deste ano. As 670 mil unidades estão quase 60 mil à frente da França. China lidera: 400 mil acima do segundo colocado, os EUA, seguidos por Japão e Alemanha. Rússia, que terminou 2008 com pequena vantagem sobre o Brasil, despencou para a décima colocação.
APESAR de desistências de grandes expositores em razão da crise financeira, a Automec, feira de autopeças, equipamentos e serviços, atingiu os objetivos. Realizada a cada dois anos em São Paulo, deu oportunidade a exportadores asiáticos que antes tinham pouco espaço disponível. Atrai mais o publico profissional e este compareceu como sempre.
TAMBÉM foi anunciada na Automec a volta da certificação ASE, instrumento de aperfeiçoamento da mão-de-obra de mecânicos e técnicos. Programa ficou interrompido por dois anos e agora está sob responsabilidade da Associação Brasileira das Reparadoras Independentes de Veículos. Oficinas com esses profissionais têm sido valorizadas no mercado de manutenção.
PROPOSTA honesta e preço muito interessante (R$ 70 mil) fazem do Kia Magentis um competidor a considerar na faixa superior dos médios (Passat, Fusion, etc.). Além do motor de 2 litros mais potente (164 cv) do segmento, o interior tem bom acabamento e característica singular: tudo o que se procura a bordo está colocado onde qualquer motorista espera encontrar.
DIFÍCIL para o Contran, sem briga judicial, impor os rastreadores nos veículos seguindo cronograma a partir de agosto próximo. Primeiro round foi vencido pelo Ministério Público Federal graças à liminar obtida pelo procurador Márcio Araújo. Mas o juiz Douglas Gonzales não proibiu os bloqueadores antifurto.
Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1984 a 1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (1967 a 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1994), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "just-auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.
COLUNA ANTERIOR: Como a crise nos EUA afeta o Brasil.
TEXTOS ANTERIORES: - Chance de ouro desperdiçada - Por que reduzir IPI no Brasil funciona - Ataque japonês - Sintonia fina - Legislando para a plateia - Os mandos e os desmandos do Contran - A virtual precisão dos dummies - A arte de prever - A hora e a vez dos mais velhos - Inspeção podia ao menos ter começado certo - Ranking revela percepções do consumidor - Detroit deixará mais dúvidas do que certezas - Copos meio cheios ou meio vazios - Como será o pós-crise? - O desconhecido tamanho da frota - Negar apoio a fabricantes seria pior - Socorro oficial imediato - A insensatez da tese da blindagem - A cultura do desperdício - O imbróglio do Proconve - Sustentabilidade em xeque - As normas da etiqueta - O desânimo não teve vez no salão - Baixíssimo custo: mais dúvidas que certezas - O admirável luxo novo - Engenharia em busca de novos rumos - A revanche dos sedãs - Os compactos "anabolizados" - A sina das marcas chinesas - Só elogios não bastam - A encruzilhada da indústria - Todos de olho grande - Estresse a menos - Segurança nunca é pouco - A ordem é economizar - Boas iniciativas não faltam - GPS em expansão - Líderes do primeiro semestre - Beber e dirigir: questão de razão? - Adversários, mexam-se! - Oportunidade de ouro - Até onde vai o gás? - A grande virada - Dupla inseparável - Insegurança pública - Em busca da liderança - Se melhorar, estraga - Falatório demagógico
|