Parece bizarro, mas crescimento zero nas vendas internas de veículos neste ano será motivo de comemoração. Esse sentimento extrapolou espontaneamente após nove horas de palestras e debates no seminário Revisão das Perspectivas 2009, realizado em São Paulo pela Autodata. Trata-se de fato de um bom resultado em um mundo envolvido por grave crise econômica. Apenas Brasil, China e provavelmente a Índia reúnem chances de evitar a queda no mercado automobilístico. Europa, EUA, Japão e até nossos vizinhos experimentarão tombos superiores a 10%.
O resultado seria ainda mais importante considerando que o país – como a coluna previu em janeiro – está tecnicamente em recessão. Isso ocorre quando o PIB (Produto Interno Bruto, conjunto das riquezas produzidas no país) cai por dois trimestres consecutivos, no caso o último de 2008 e o primeiro de 2009. Como regra geral, o resultado do PIB influencia as vendas de veículos, porém, atualmente, o PIB é que vem a reboque dos compradores de carros.
No entanto, as coisas continuam difíceis. A produção cairá porque as exportações dependem do cenário externo, que é ruim. O índice de emprego diminuirá em toda a cadeia, salvo as concessionárias. Alguns investimentos foram adiados e a meta de produzir 5 milhões de veículos atrasará no mínimo dois anos, para 2015. O Brasil dependerá ainda mais do seu mercado interno devido ao excesso de capacidade instalada no mundo.
Para se sustentar o país precisa de crédito, que cresceu 220% entre 2002 e 2008 na economia como um todo, e as notícias são estimulantes. Luiz Montenegro, da Anef (associação dos bancos dos fabricantes), afirmou que o as prestações em atraso tendem a se estabilizar, mas o patamar é inferior aos piores tempos do passado. Como há queda nos juros e as novas vendas estão saudáveis, a inadimplência permanece sob controle. Tanto que o prazo de 72 meses voltou a ser oferecido, como estímulo psicológico, já que atrai poucos clientes.
Marcos Oliveira, presidente da Ford, ressaltou a tendência, nos últimos três anos, de carros compactos equipados. Na mesma linha, Paulo Cardamone, da consultoria CSM, previu que até 2015 modelos com motores até 1.000 cm³ cairão do atual nível de 50% das vendas para 30% graças ao aumento de poder aquisitivo.
O presidente da Fiat, Cledorvino Belini, discordou: "Previsões anteriores nessa direção falharam". Belini, ao contrário de outros executivos do setor, considera importante que o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), hoje reduzido, continue até o fim do ano para garantir que os números de 2008 se repitam em 2009. Na realidade, ele ficaria contente se houvesse uma retirada paulatina, mês a mês no segundo semestre, que impactaria menos o mercado.
O que ajudará mesmo nas vendas, além do crédito em expansão e o imposto reduzido, é a política de preços da indústria. Ficou claro que o desconto médio ao cliente final foi maior do que o percentual de queda do IPI. Os feirões de fim de semana continuam atraindo. O brasileiro parece ter incorporado esse hábito na hora de decidir a compra.
O setor de autopeças confia que as concessionárias persistirão combativas. Flávio Del Soldato, do Sindipeças, descontraiu o ambiente ao se dirigir a Sérgio Reze, presidente da Fenabrave: "Continuo rezando pelo Reze".
Roda Viva
NOTÍCIAS da Argentina dão conta que a primeira picape média da Volkswagen, fabricada apenas lá, chegará em novembro próximo. A previsão é oferecer opção de três motores: diesel, gasolina ou flex. Nome mantém-se em segredo. Codinome de projeto – Robust – ainda está entre os favoritos para a escolha final. Concorrente de peso no segmento.
FORD iniciou nova era no mercado americano ao lançar, no Lincoln MKS, o primeiro motor Ecoboost. Trata-se de V6 com mesmo desempenho de V8 e menor consumo, ao combinar injeção direta de combustível e turbocompressor. Fábrica terá 90% de seus motores como Ecoboost até 2013. Inclusive 4-cilindros com desempenho de V6, em modelos médios e compactos.
JETTA pode ser caro em relação a concorrentes diretos como Civic e Corolla, entre outros. Porém, seu motor de 5 cilindros em linha, 2,5 litros e 170 cv inebria com sua sonoridade peculiar, além de garantir desempenho bem superior. Acabamento de bom nível, muitos equipamentos de série e suspensões corretas na relação conforto-estabilidade são outros destaques.
SURFANDO na onda dos motores flexíveis em combustível, a Castrol lançou óleo semissintético com pacote de aditivos específicos. Viscosidade menor (SAE 15W40) permite até 2% de economia de combustível. A empresa preconiza intervalo de troca conforme recomenda o fabricante do motor. Não contempla a chamada troca preventiva, a cada 5.000 km.
PROVA de confiança no mercado europeu, a Equip Auto 2009, de 13 a 18 de outubro, em Paris, é um salão que aposta na diversificação do mercado de reposição e no tradicional concurso internacional de inovações. Marie-Ange Joarlette, representante no Brasil da promotora Promosalons, destaca também foco no consumo consciente.
Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1984 a 1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (1967 a 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1994), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "just-auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.
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