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OPINIÃO
28/05/2009 - 17h25
Autogiro
O teste do bafômetro na França
Fui parado pelos policiais e submetido ao aparelho; sim, havia bebido... e agora?
por LUÍS PEREZ, enviado especial a Paris

Luís Perez - Pedro Bicudo/DivulgaçãoNa noite de sábado (23), depois de jantar em Saint Malo, cidade litorânea da região da Bretanha, norte da França, trato de pegar a estrada para voltar a Mont Saint Michel, na Normandia, onde estava hospedado. Sem navegador, depois de rodar algumas dezenas de quilômetros (estava fazendo a avaliação do Citroën C3 Picasso; leia aqui), dou conta de que não devia estar no caminho certo. Procuro pegar um retorno e voltar a Saint Malo, onde, da região conhecida como Intramuros (onde há concentração de lojas, bares e restaurantes), conhecia outro caminho, pela praia, para Saint Michel.

Eis que, em uma dessas típicas barbeiragens causadas por pura indecisão em uma rotatória (aliás, no Brasil ninguém respeita a preferencial, que é de quem chega primeiro), obrigo um carro de polícia a frear para me deixar passar. Foi a deixa. Ando mais um pouco, os policiais (eram três) me seguem e fazem parar. "Documentos, por favor", diz o policial. Explico que a carteira de motorista está comigo, mas os documentos do carro estão no porta-malas. No início, fica meio ressabiado, mas não tem jeito. Ele me deixa descer. Pergunta se o carro que dirijo é alugado. "Não, sou jornalista brasileiro e estou fazendo uma reportagem com este modelo, que é da Citroën", explico.

Claro, ele havia me parado por conta da barbeiragem na rotatória, alguns metros antes. "Você consumiu álcool?", pergunta. Respondo que sim, durante o jantar, mas que não em grande quantidade. Em menos de dez segundos, aparece um bafômetro. Sopro. O resultado está longe de dar zero. O policial: "Hummm... Está dentro do limite aceitável. Sem problemas. Pode ir". Claro que não vou dizer o resultado aqui neste texto (falsos moralistas de plantão podem vir com pedras nas mãos...). Mas sei que na França (e na Suíça, onde já dirigi) há uma tolerância para o consumo de álcool, desde que se coma algo quente. Ou seja, em uma refeição normal. Aos guardas, explico em seguida que estava meio perdido e que procurava a saída para Mont Saint Michel. Eles não só gentilmente me ensinam o caminho como me acompanham pelo trecho mais complicado antes de pegar a estrada a partir da qual seria só uma linha reta.

Chego são e salvo. E garanto: não senti um pingo de receio de fazer o tal teste do bafômetro. Pelo contrário. Senti segurança, sensação de zelo, fui tratado com cortesia e, acima de tudo, respeito. Tudo bem, vou começar a ladainha de que a base de tudo é a educação. Mas não é reconfortante estar em um país de Primeiro Mundo, em que o Estado não procura ser paternalista ao extremo? Afinal, se fosse parado com a mesma quantidade de álcool no sangue em São Paulo, teria a carta suspensa, além de ter de pagar uma multa pesada. Além disso, o teste do bafômetro foi feito de forma "low profile", rotineira, sem nenhuma pirotecnia fiscalizatória com direito a cobertura da imprensa.

"Vocês são muito importantes para o nosso trabalho", disse-me certa vez um policial militar paulista, sobre a função de jornalista, ao fazer reportagem sobre a lei seca. Engano. No Brasil somos tratados, muitas vezes com razão, como pseudo-cidadãos que não sabem assumir suas responsabilidades. É simples explicar por quê: não há fiscalização regular. Fosse a legislação anterior à rígida lei seca que, como na Europa, permitia uma determinada quantidade de álcool no sangue, mas houvesse fiscalização, os índices de acidentes seriam baixíssimos, como devem ser na França, onde se veem pouquíssimos acidentes e, por mais congestionada que uma via esteja, ninguém trafega pelo acostamento (outro exemplo de civilidade).

No Brasil tanto faz uma multa de R$ 1.000, como é hoje, ou 30 anos de prisão. Logo a fiscalização arrefece, as pessoas voltam a beber, e os acidentes, a acontecer. Que tal se fôssemos tratados no Brasil como cidadãos grandinhos, conscientes de nossas responsabilidades e, mais do que temer a multa ou a perda da carteira de habilitação, abominar a ideia de fazer qualquer tipo de mal ao próximo? Afinal, pessoas queridas certamente esperam que eu volte pra casa são e salvo.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Trabalhou por 13 anos no jornal "Folha de S.Paulo", onde exerceu diversas funções, entre elas a de editor de Veículos, foi editor-executivo da revista "Avião Revue" e colabora com diversas publicações. Escreve às quintas-feiras neste espaço.

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