Entender o que se passa no exterior, atualmente, vem se tornando um complicado quebra-cabeças. Deve-se acompanhar de perto, porque os reflexos chegarão ao Brasil e influenciarão os lançamentos de fabricantes que respondem por mais de 50% das vendas no mercado interno. A cada semana surgem novidades, especulações, idas-e-vindas.
Exemplo evidente é a aliança entre Fiat e Chrysler. Depois de chegar à Suprema Corte dos EUA, afastaram-se os obstáculos jurídicos em menos de três dias. No entanto, a Fiat não "comprou a Chrysler sem colocar um tostão", como se comentou. A estrutura administrativa das empresas americanas é peculiar. A fábrica italiana ficou, inicialmente, apenas com 20% das ações, mas nomeou o principal executivo, Sergio Marchionne. O conselho de administração tem quatro diretores que representam o governo americano (só 8% do capital), três da Fiat e um do sindicato (55% do capital), fora os representantes dos ex-credores.
Na realidade os executivos e engenheiros italianos vão dividir esforços, tempo e dinheiro (anda escasso) em escala ainda imprevisível para cuidar do "paciente" americano. Pelo que se lê nos EUA, dar certo é que será surpresa. Para o Brasil, a recém-estilizada picape Dodge Dakota, produzida no Paraná entre 1998 e 2002, seria mão na roda. Um produto lucrativo e de imagem que faz falta à marca italiana. Talvez seja reavaliada a importação do México do Dodge Trazo – versão sedã do Tiida – produto de acordo anterior da Chrysler com a Nissan.
Na Europa a Fiat ainda nutre esperanças de acordo com a Opel, subsidiária alemã da GM. A Magna empresa canadense de componentes e de produção de veículos para terceiros, em sociedade com a fábrica GAZ e um banco russos, está mais adiantada e tem preferência de Detroit. Opel e Fiat juntas parecem fazer mais lógica do que o negócio com a Chrysler, mas há obstáculos. A GM quer assegurar 35% no capital da nova Opel por deter investimentos tecnológicos. Produtos Chevrolet e Fiat, no Brasil, poderão ser fortemente afetados no futuro, depois de resolvido o imbróglio no segundo semestre.
O cenário confuso traz sinais contraditórios. A consolidação é um caminho, como indicam italianos e americanos. Mas também existe desconsolidação. A GM vendeu a Saab para o pequeno fabricante sueco de carros esporte Koenigsegg; a Saturn, para o grupo americano Penske; a Hummer, a um fabricante chinês de máquinas. A Ford, depois de se desfazer de Aston Martin (vendida a um grupo de investidores), Jaguar e Land Rover (para a indiana Tata), acaba de acertar a Volvo com a chinesa BAIC. Essas marcas separadas conseguirão se firmar longe dos grandes conglomerados?
Por outro lado, Porsche e Volkswagen formam um bloco de oito marcas de automóveis e duas de veículos comerciais, um gigantismo para o momento. A Toyota, ao contrário, controla três marcas de automóveis (uma delas regional) e uma de caminhões. A Honda, apenas duas, à semelhança da PSA Peugeot Citroën. A BMW, três; Daimler três; Renault, três (sem contar participações cruzadas na Nissan e Autovaz). Fiat e Chrysler juntas teriam nove marcas de automóveis e uma de caminhões.
É hora de parar e pensar.
Roda Viva
MAIS adiamentos em função da crise. Só no quarto trimestre a Hyundai passará a enviar, da Coreia do Sul, conjuntos desmontados do Tucson para as instalações do grupo Caoa, em Anápolis (GO). Brasil será o único fornecedor desse modelo para a América do Sul. Quanto à anunciada fábrica da Hyundai em Piracicaba (SP), pelo menos um ano de atraso.
LIVINA vem conseguindo achar seu lugar entre os monovolumes compactos. Interior é ao mesmo tempo espaçoso e, de certo modo, aconchegante para quem guia. Acabamento condiz com o preço. Compromisso dinâmico entre conforto e estabilidade agrada. Motor de 1,6 l (origem Renault), de 108 cv (etanol), não entusiasma pelos 1.160 kg com que tem de lidar. Há opção de 1,8 l.
DEMOROU, mas a BMW se rendeu à capota metálica no seu novo roadster (conversível, dois lugares). O Z4, que chegou rapidamente ao Brasil, esbanja presença, estilo em nítida evolução (vincos agora nos lugares certos), qualidade de materiais e equipamento completo. Distribuição de peso (50% em cada eixo) e motor de seis cilindros em linha formam combinação perfeita.
MINI, outra marca da BMW, também aposta na imagem com a versão conversível, de venda naturalmente limitada. Nem pensar em quebrar a tradição da releitura do clássico carrinho inglês: capota é de lona. Além do contador de tempo no modo aberto, há um truque interessante. O recolhimento parcial da capota faz o papel de teto solar. Opção simples e eficiente.
PREOCUPAÇÃO com a diminuição de consumo de combustível estende-se aos pneus. Acréscimo de sílica, por exemplo, diminui a resistência à rodagem. Assim a Michelin propõe na Europa um selo de desempenho energético para todos os pneus novos à venda, originais ou de reposição. Se aceito, seria aplicável a partir de 2011.
Fernando Calmon é engenheiro e jornalista especializado desde 1967. Foi diretor de Redação da revista "Auto Esporte" (1976 a 1982 e 1990 a 1996) e editor de Automóveis de "O Cruzeiro" (1970 a 1975) e "Manchete" (1984 a 1990). Produziu e apresentou os programas "Grand Prix", na TV Tupi (1967 a 1980), e "Primeira Fila" (1985 a 1994), em cinco redes de TV. Exerce consultoria em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. É ainda correspondente para a América do Sul do site "just-auto", da Inglaterra. Fale com o colunista aqui.
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