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OPINIÃO
09/07/2009 - 16h29
Autogiro
Despreparo ou má-fé
As lições de uma multa absurda
por LUÍS PEREZ

Luís Perez - Pedro Bicudo/DivulgaçãoNão sou nenhum anjinho no trânsito. Quem o é, afinal? Mas procuro não colocar em risco vida e patrimônio de ninguém quando estou ao volante. Quem nunca se distraiu? Quando isso acontece, peço desculpas e sigo com a consciência tranquila. O fato de uma infração ocorrer por distração não livra ninguém da multa. Foi o que aconteceu comigo no dia 16 de junho último, uma terça-feira. Eram 9h21 da manhã. De tanto avaliar carros de teste, simplesmente me esqueci que a placa daquele Chevrolet Vectra GT-X azul Arian (aquela cor chamativa, de lançamento) que eu dirigia era final 4. Foi mal. Logo eu, que raramente saio cedo de casa. Fui flagrado pelo agente de trânsito (número 010471) na esquina das ruas Heitor Penteado e Cerro Corá (zona oeste) e levei uma multa (infração média, quatro pontos).

Até aí tudo bem, fora o desfalque nos pontos (tudo bem, não levo muitas multas, estou longe de perder a carteira...) e no bolso. Fiquei surpreso, no entanto, com o fato de ter levado uma multa "dupla". Com a autuação de rodízio, chegou uma outra (mesmos agente, dia, horário e local) por dirigir falando ao celular. Absurdo! Mentira! Patacoada! O modelo em questão era equipado com Bluetooth, que estava devidamente pareado com meu celular. Basta entrar com o aparelho no carro para que uma luz azul se acenda no painel e pronto. Se o telefone tocasse ou se eu precisasse completar uma ligação, isso seria feito pelo sistema de som do carro.

Sim, já recebi uma ou outra mensagem de leitor se dizendo injustiçado pela fiscalização – e confesso que até agora pensei que era conversa fiada. Agora não. Constatei na pele que há agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) que agem completamente despreparados (será que eu cocei a orelha e ele achou que estava ao celular?) ou por má-fé ("Vou dar uma lição de moral no playboy que está dirigindo esse carrão...").

Só me resta pagar as duas multas (uma justa, outra injusta...). Recorrer nesse caso é completamente inútil. Por aconselhamento de um colega, tentei levantar na companhia telefônica um documento que provasse que meu celular não estava em uso naquele momento. A empresa me informou que só teria como fornecer as ligações feitas, não as recebidas. Ou seja, a comissão julgadora de recursos poderia argumentar que eu havia recebido e não efetuado a ligação. Ou poderia até dizer que eu não estava usando o meu próprio celular naquele momento. Na verdade, é jeito de falar. Comissão julgadora não argumenta nada. Indefere e pronto!

Vectra GT-X - foto Roberto Assunção
Vectra GT-X: será que o agente achou que era "carro de playboy"?

Da mesma forma em que enalteci a sobriedade da polícia francesa em outro artigo neste mesmo espaço (leia aqui), desta vez admito ter medo. Medo dos absurdos que podem ser atribuídos a mim ao volante de um automóvel sem que eu tenha a mínima chance de defesa. Nem vou fazer aqui o discurso hipócrita de que receio perder minha carteira de motorista. No Brasil, o país do "jeitinho", basta ter o carro em nome de pessoa jurídica e pagar a multa em dobro para não ter os pontos em seu prontuário. Ou talvez saia mais barato comprar por esse "serviço" ou atribuir os pontos a uma alma caridosa da família – que tenha carteira, mas nem pega em carro.

Pior do que o medo, no entanto, no caso dessa multa "dupla", é o sentimento de decepção. Em relação a uma corporação que parecia ser composta unicamente de profissionais sérios – mas que não é.

PS - O relato deste caso foi enviado nesta quarta (8) à CET, que não havia respondido até a publicação deste artigo.

Luís Perez é jornalista e edita o site Interpress Motor. Trabalhou por 13 anos no jornal "Folha de S.Paulo", onde exerceu diversas funções, entre elas a de editor de Veículos, e foi editor-executivo da revista "Avião Revue". Colabora com diversas publicações. Escreve às quintas-feiras neste espaço.

leia mais COLUNA ANTERIOR: O teste do bafômetro na França.

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