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REPORTAGEM
28/04/2009 - 10h40
AVALIAÇÃO
Dirigir o Mille Economy é praticar o desapego
Condução do modelo é extremamente prazerosa; equipado, carro chega a R$ 30 mil
por LUÍS PEREZ
Na última semana o Fiat Mille Fire Economy foi o primeiro automóvel nacional a receber do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial) um selo que atesta ser o automóvel de melhor desempenho em termos de economia de sua categoria. O programa de etiquetagem ainda está em fase experimental.
Mas foi a deixa que precisávamos para solicitar à Fiat um exemplar para avaliação. Já sabia que essa análise dificilmente seria desprovida de uma bela dose de carga emocional. O Uno (que depois virou Mille, por ganhar motor "mil", em 1993) foi meu primeiro carro, uma versão CS 1986 comprada usada, em 1992. No ano seguinte o Mille propriamente dito foi meu primeiro zero-quilômetro.

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez
O Mille mantém o mesmo design de quando foi lançado, em 1984

Conhecido pelo apelido de "botinha ortopédica", era um sonho de consumo no final dos anos 80, início dos anos 90, quando o país ainda não havia sido invadido pelos importados ou mesmo pelo então revolucionário "Kinder Ovo" Chevrolet Corsa.

Apesar dos contatos que tive com o modelo nos últimos anos – nos eventos de lançamento das duas últimas reestilizações, em fevereiro de 2004 e em agosto de 2008 –, é diferente dirigi-lo à vontade por uma semana na cidade, nas estradas e sair para passear com a família no fim de semana. Se bem que nem precisou de muitos quilômetros para perceber por que ele ainda é um dos três carros mais vendidos do país. Bastaram alguns metros a partir do escritório da Fiat, no bairro do Paraíso (região central de São Paulo).

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez
Novo logo vermelho na dianteira e na traseira, sem maçaneta

Seu design externo não é nada inovador, como há quase duas décadas. Mas o prazer de dirigi-lo continua o mesmo. Embora não tenha regulagem de altura nem para o banco dianteiro (é um dos poucos carros em que se enxerga a ponta do capô) nem para o cinto de segurança, conduzir o Mille é uma espécie de ode à praticidade da vida. Ou, diriam alguns, um belo exemplo de prática ao desapego.

Esperávamos um modelo rústico, cheio de rebarbas e problemas de acabamento, com ruído excessivo do motor invadindo a cabine. Não encontramos nada disso. O acabamento melhorou horrores desde a última vez em que tive contato com o modelo, e o isolamento acústico, pelo jeito, vem sendo aperfeiçoado com um trabalho em silêncio, mineiro, como a fábrica da Fiat em Betim. Pena que ele não possa ser equipado com airbag e ABS.

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez
No alto, silhueta "botinha"; acima, o Econômetro em ação

Seu comportamento dinâmico, competente em acelerações e retomadas, bem como nas curvas, não tem nenhuma relação com o do também "de entrada" Ford Ka, que mais se assemelha a um kart. A despeito de seus 25 anos de história só no Brasil, o Mille tem uma dirigibilidade extremamente contemporânea – ainda mais em tempos de crise, em que economia virou palavra de ordem. Lembra o "irmão mais novo" Palio. Só sofre um pouco nas subidas mais íngremes, mas ainda assim não faz feio.

Leitores mais atentos notarão, pelas fotos, que o desapego a que me refiro é relativo. Afinal a unidade cedida pela fabricante veio com todos os opcionais possíveis – pack Celebration, composto por ar-condicionado, direção hidráulica, kit Concept (vidro traseiro térmico, limpador/lavador do vidro traseiro, retrovisores externos com regulagem interna manual, porta-objetos nas portas dianteiras, apoio de cabeça posterior com regulagem de altura, vidros dianteiros elétricos, trava elétrica nas portas e a inscrição "Celebration"), pintura metálica, toca-MP3 e rodas de liga leve aro 13.

Recheado assim o carrinho, que acaba de ganhar o novo kit Top (leia aqui), passa dos R$ 23.367 sugeridos pela fábrica (R$ 21.754 se tivesse só duas portas) para R$ 29.757. Ou seja, quase R$ 30 mil por um Mille. Corre entre especialistas que há anos a Fiat lucra bastante com o Mille. Sim, embora os carros "populares" sejam os de menor margem, seu projeto e custos de produção já devem ter sido pago algumas centenas de vezes. De projeto aliás extremamente feliz, o modelo ganhou no ano passado um novo motor, o Fire Economy 1.0 Flex (65 cv com gasolina, 66 cv com álcool), com a missão de torná-lo 10% mais econômico.

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez
Vista geral do painel do modelo; unidade vinha com toca-MP3

Associado a outras medidas (novo óleo de baixo atrito no motor, quinta marcha mais longa, nova suspensão e pneus de baixa resistência ao rolamento, entre outras), o modelo ficou, segundo a Fiat, cerca de 10% mais econômico. Ganhou no painel, para orientação do motorista, o Econômetro, que procura auxiliar o condutor a dirigir da forma mais econômica possível.

Funciona assim: com o carro em marcha lenta, o ponteiro fica no branco. O Econômetro começa a atuar quando se pisa no acelerador, e começa a indicação com velocidade superior a 7 km/h, percorrendo a escala da faixa amarela (menos econômico) à verde (mais econômico). Ao tentar fazer o carro ficar mais tempo no verde, dependendo do trânsito, você corre o sério risco de ser tachado de domingueiro por outros motoristas. Melhor ter bom senso.

Fiat Mille Fire Economy - foto Luís Perez
A velha alavanca para reclinar o banco, que engancha no cinto

Também não é um bom conselho apelar para a "banguela" (deixar o carro se movimentar em ponto morto), pois, graças à injeção eletrônica, o carro vai consumir mais do que se estivesse com a marcha apropriada engatada. Isso além de ser perigoso e gastar mais o freio.

Dados da Fiat indicam que com gasolina o Mille roda 15,6 km/l na cidade e 22 km/l na estrada, número que com álcool cai para 11,1 km/l e 15,6 km/l, respectivamente. Sua aceleração de 0 a 100 km/h ocorre em 14,7 segundos (álcool) e 15,1 segundos (gasolina). A velocidade máxima é, respectivamente, de 153 km/h e 151 km/h.

Fica claro, até pela reação das outras pessoas nas ruas, que dirigir o Mille é uma viagem no tempo. Mas até a máquina do tempo merece receber alguns aperfeiçoamentos, não é mesmo?


Fiat Mille Fire Economy

Motor: dianteiro, transversal, quatro cilindros em linha, 8V, flex, 999,1 cm³ de cilindrada
Potência: 65 cv (gasolina) a 66 cv (álcool) a 6.000 rpm
Torque: 9,1 kgfm (gasolina) a 9,2 kgfm (álcool) a 2.500 rpm
Direção: mecânica
Câmbio: manual de cinco velocidades

Suspensão: dianteira McPherson com rodas independentes e barra estabilizadora; traseira com rodas independentes e braços oscilantes inferiores
Freios: a disco na dianteira e a tambor na traseira
Dimensões: 3,69 m de comprimento; 1,55 m de largura; 1,45 m de altura; 2,36 m de entreeixos
Peso: 830 kg

Tanque: 50 litros
Porta-malas: 290 litros
Preços: R$ 23.367 (quatro portas), R$ 29.757 (versão avaliada)

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