Nada como sair da concessionária com um carro zero-quilômetro recheado de opcionais. Melhor ainda se forem equipamentos de conforto, os preferidos dos consumidores. Pois saiba que o dinheiro investido neles não será recuperado na hora da revenda, em especial os de segurança, como airbags e freios ABS (antitravamento). Carros usados superequipados valem mais que os básicos sim, porém nunca o mesmo tanto que um zero-quilômetro.
Em uma loja de usados, um carro equipado com ar-condicionado vale cerca de R$ 1.000 a mais que um sem o equipamento. Quando zero-quilômetro, a diferença é bem maior: para equipar um Volkswagen Gol 1.0 City Total Flex com o acessório, o consumidor investirá R$ 3.950. A direção hidráulica, que sai por R$ 1.637 em um Siena Fire Flex 2006, valorizará um usado em apenas R$ 700.
 Da linha Fiesta, apenas 1,5% do mix sai de fábrica equipado com airbag e ABS
“O comprador do carro usado é menos exigente e tem o dinheiro exato para a compra”, afirma o especialista em mercado Joel Leite, da Agência Autoinforme. A partir desse raciocínio, uma valorização acentuada dos equipamentos opcionais pode elevar muito o preço do usado e dificultar a sua venda.
No caso dos equipamentos de segurança – infelizmente vendidos em sua maior parte como opcionais no Brasil – a desvalorização é ainda maior. Um Stilo 1.8 2004 com airbag duplo e freios ABS vale, no máximo, R$ 1.000 a mais do que o mesmo carro sem os equipamentos. Quando novo, a conta é muito mais alta: os dois opcionais acrescem R$ 4.988 – uma desvalorização de quase de 500%.
Nesse caso é a falta de interesse dos brasileiros por equipamentos de segurança a principal razão da desvalorização. De acordo com Rodrigo Lourenço, gerente de marketing de carros compactos da Ford, apenas 1,5% do mix da linha Fiesta sai de fábrica equipado com airbags e ABS.
 Honda Fit superequipado: após um ano, desvalorização de quase 10%
Um caso famoso é o da Renault, que equipava toda a linha Clio com airbag desde seu lançamento, em novembro de 1999, mas, pressionada pelos concessionários, que queriam um preço final menor, retirou o equipamento da versão de entrada do hatch.
Com essa falta de procura, o fabricante não consegue fazer número na linha de montagem e fabricar os equipamentos no país. A solução é importá-los, o que eleva seu preço. Da mesma forma que o primeiro dono não aceita pagar mais pelo airbag e o ABS quando o carro é novo, o segundo também não vai concordar. Logo, o lojista tem de pagar pouco para conseguir comercializar o veículo rápido.
Itens de aparência e conveniência também são pouco lembrados pelos lojistas na hora da negociação. Sensores de chuva, farol e estacionamento não proporcionam nenhuma valorização a um usado, porém juntos – e obrigatoriamente combinados com outros opcionais pela Fiat – oneram em R$ 3.903 o valor de uma Palio Weekend Adventure zero-quilômetro.
 Chevrolet Meriva Joy: desvalorização superior a R$ 8.000 em apenas um ano
Rodas de alumínio de 15 polegadas e faróis de neblina acrescem R$ 1.990 ao preço de um Polo 1.6 Total Flex na concessionária, porém aumentam em apenas R$ 200 o preço do carro em uma loja de usados.
Se por um lado os equipamentos opcionais são pouco valorizados, por outro eles são um importante chamariz para o futuro segundo proprietário. Carlos Henrique Ferreira, assessor técnico da Fiat, explica que, por quase o mesmo preço, o consumidor pode comprar o mesmo carro, porém com muito mais itens.
Esse fenômeno não é encontrado nos carros recheados de equipamentos de série. Um Honda Fit LX-L, que traz de série ar-condicionado, direção elétrica, trio elétrico, airbag duplo, freios ABS e toca-CDs, custa R$ 48.690. Daqui a um ano, com a desvalorização, custará por volta de R$ 44.500.
 Stilo 1.8: quando usado por dois anos, itens de R$ 4.988 valem só R$ 1.000
Uma Meriva Joy 1.8 zero-quilômetro, com os mesmos equipamentos (sem freios ABS, indisponíveis), sai hoje por R$ 50.566, porém seu valor em julho de 2007 será feito em cima de uma versão apenas com os equipamentos de série, hoje avaliada em R$ 43.035. Com a desvalorização anual e os opcionais, seu valor para a revenda não passaria dos R$ 42 mil.
Eduardo Galvani, gerente da loja multimarcas Alpini Veículos, diz que no caso de uma Meriva como a citada, sempre o consumidor terá uma opção menos equipada e mais em conta. “Se o cliente chegar à loja e tiver um carro com airbag e outro sem, custando R$ 2.000 a menos, é óbvio que ele economizará. Por isso o equipamento não é muito valorizado na revenda. Isso não acontece com um veículo que traz tudo de série, em que não há outra opção”, explica.
Fique de olho
1) Se você está decidido a rechear seu carro novo de equipamentos, saiba que a negociação com a concessionária não será das mais fáceis. O vendedor tentará fazer você esquecer a idéia e empurrar algum carro parecido que esteja em seu estoque. A espera pelo carro bem equipado também costuma ser longa. Depois de pedido, um compacto com airbag e freios ABS, por exemplo, pode demorar de 30 a 45 dias para ser produzido, despachado e entregue.
2) Quando for negociar o seu carro usado superequipado, procure valorizá-lo. Alerte ao vendedor os equipamentos que o veículo possui, o funcionamento deles e demonstre conhecimento de que eles facilitarão a revenda. Pode parecer que não, mas alguns opcionais costumam passar despercebidos pelas lojas de carros usados, seja por distração, seja por desconhecimento dos vendedores. Uma disqueteira escondida no porta-luvas ou no porta-malas pode significar R$ 100 a mais no preço que a loja vai lhe pagar.
3) Sempre mantenha os equipamentos funcionando corretamente. Se já são pouco valorizados em perfeitas condições, com defeitos então significam uma desvalorização ainda maior. O lojista precisará repará-los para a revenda, e os descontos no preço final não costumam ser pequenos.
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