Depoimento de João Batista de Andrade:

A Poli, apesar de sua fama de reacionária, era a escola em que os estudantes mais se organizavam em todos os setores: esporte, teatro, cinema. Nós tínhamos o Grêmio Politécnico mas o centro de todo o ativismo era a Casa do Politécnico, para onde eu me mudei no início de 62, já militante do PCB. Ali, com alguns colegas, fizemos o jornal literário de nossa "escola literária písico realista". Com Francisco Ramalho Jr, futuro diretor e produtor de cinema, trabalhei como colaborador do jornal do Grêmio, de que o Ramalho era editor: "O Politécnico", jornal que passou mesmo a ser conhecido como "o jornal vermelho", entre os estudantes. Primeiro porque a gente conseguia uma inusitada regularidade de edições do jornal e também um nível alto de debate político e cultural. "O Politécnico" chegou mesmo a ser distribuído em banca de jornais.

E foi também através do Ramalho que eu me aproximei do cinema. O Ramalho tinha iniciado um grupo de cinema, de que já faziam parte, além dele, nosso colega Barcarollo, o José Américo Vianna (Batataes) e o Clóvis Bueno. Os dois primeiros depois seguiram suas carreiras como engenheiros e Clóvis tornou-se um dos principais diretores de arte do cinema brasileiro.

Esse grupo inicial tinha filmado, em super 8, uma história do próprio Ramalho, "Menina Moça", que era estrelado nada menos do que pelo nosso saudoso Antônio Benetazzo, anos mais tarde assassinado pelos militares como um dos líderes da ALN. Depois disso, já com minha participação, adquirimos uma câmera Paillard 16mm, de corda e criamos o Grupo Kuatro de Cinema.

O nome "Kuatro" vinha da influência do cinema polonês nesse nosso início de carreira. Os poloneses André Wajda e Jerzy Kavalerovich tinham uma produtora chamada KADR cujo nome aparecia, na abertura dos letreiros de seus filmes, com o som duro de uma máquina de escrever (coisa que nos influenciaria ainda, mais tarde, quando em 68 eu e Ramalho criamos a TECLA).

Nós começamos a filmar, nesse ano de 1963, dois projetos quase que consecutivamente: um documentário sobre os catadores do lixão paulista e outro sobre o TPN - Teatro Popular Nacional, criado pela Ruth Escobar e que apresentava espetáculos de teatro numa estrutura ambulante montada numa "jamanta" (caminhão de carroceria tipo baú e muito grande). Nós filmamos muita coisa do lixão, mas não tínhamos muita noção de estrutura. O material se acumulava, um pouco sem destino. O filme ficou inacabado, destruído na sede da UEE (União Estadual dos Estudantes) depois da invasão do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), durante o golpe militar. O filme era financiado por uma pessoa muito especial: a Assunção Hernandes, em nome do Movimento de Cultura Popular, da UEE de São Paulo.

Quanto ao filme da Ruth Escobar, esse também ficou inacabado. A Ruth patrocinava o filme, que serviria para ela procurar apoios financeiros para o projeto. Nós fomos filmando e ela ia pagando, devagar. E a gente ia continuando, seguindo a "jamanta" pelos bairros e nos divertindo com as palhaçadas e piadas do ator Ari Tolêdo, no "Auto do Novilho Roubado", de Ariano Suassuna. Tendo um material mínimo para uma primeira montagem, montamos o filme. A Ruth marcou então um dia para que mostrássemos o filme em sua casa: ali estariam várias autoridades (falava-se de Jânio, Faria Lima e outros peso-pesados). O filme chegou a ser exibido, numa improvisada banda dupla com projetor e gravador.

E nós não conseguimos mais finalizar o filme. O copião montado ainda foi visto por gente como o Jean-Claude Bernadet que já era uma de nossas referências cinematográficas em São Paulo. Mas depois, com o abandono do projeto, o material foi literalmente mastigado pelas pequenas filhas do Ramalho.