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João Donato multiplicado por dois   
Beatriz Coelho Silva
Estado de São Paulo - 13.04.07

De uma vez só, o pianista João Donato lança dois CDs, diferentes na concepção e cheios de coincidências. O Piano de João Donato (Deck Disk) e Uma Tarde com Bud Shank e João Donato (Biscoito Fino)foram gravados de uma só respirada e têm standards do jazz e da música brasileira. Ambos fogem do virtuosismo exibicionista e dão a impressão de que tocar aquelas músicas é tão fácil para ele quanto é fácil para nós ouvi-las. A diferença é que, Uma Tarde... é um diálogo entre dois amigos de longa data e O Piano... é um monólogo, o primeiro do músico só com seu instrumento que faz o ouvinte se sentir meio voyeur. De hoje a domingo, no Auditório Ibirapuera, Donato apresenta o repertório do solo, mas está acompanhado por Carlinhos Noronha (baixo) e Edu Ribeiro (bteria) e convida Lenny Andrade no primeiro show e Filó Machado no segundo.

O Piano de João Donato é recente, fruto da tranqüilidade da Urca, uma enseada na zona sul do Rio, para onde se mudou há tempos. O mais engraçado é que, embora lance dois ou três discos por ano, o pianista não tinha ainda um solo. 'Nem sei por que demorei tanto a gravar um disco só de piano. Talvez não estivesse totalmente preparado ou aberto a isso', diz ele no texto que acompanha o disco para a imprensa. 'Um trabalho meu, só na inspiração, foi um desafio. Algumas músicas eu incluí na hora, mas nenhuma teve ensaio.'

Curioso é que, sozinho, ele é mais formal. Parece mais concentrado em perseguir a exatidão da nota. Mas não falta espontaneidade, como se a gente estivesse em sua varanda na Urca e ele nem percebesse nossa presença. Há standards como Paradise Found, Speak Low e Invitation (em que ele vai nas águas de seu ídolo, Stan Kenton) e clássicos brasileiros com o Manhã de Carnaval (que ele registra pela primeira vez), A Paz (primeira parceria com Gilberto Gil que, nos anos 70, o convenceu de que música podia e devia ter letra, detalhe para o qual o pianista nunca havia atentado) e Ivone, feita para sua mulher, a jornalista Ivone Belém. Há também Joana, parceria com Ronaldo Bastos dedicada à filha do pianista, também registrada no outro disco, mas num clima diferente, pois ele confia a maior parte dos solos a Bud Shank.

Donato conheceu o saxofonista nos anos 60, quando vivia nos Estados Unidos, no embalo do sucesso da bossa nova. Naquela época, a empatia foi imediata, até porque Shank tinha sido músico do pianista Stan Kenton, ídolo de Donato. O resultado da convivência foi um disco do qual participou também a violonista Rosinha de Valença. Não se viram mais até Shank vir ao Rio há três anos, para um festival de jazz. Nosso pianista foi convidado para uma canja e foi como se tivessem passado os últimos 40 anos em contato. Daí para gravar Uma Tarde... foi um pulo.

'Foi como se a gente tivesse se deixado na véspera. Não precisamos ensaiar porque jazz é assim, como uma conversa. Você escolhe um tema, um fala uma coisa, outro acrescenta uma frase, o primeiro responde, o companheiro emenda e por aí vai', conta João Donato. 'Ele e eu somos músicos que buscam o caminho mais agradável, não queremos nos exibir, apenas ficar feliz com a música e deixar as pessoas que nos ouvem tão satisfeitos quanto nós.'

Das oito faixas de Uma Tarde..., apenas três são de Donato, Gaiolas Abertas (com Martinho da Vila), a já citada Joana e Minha Saudade (outra com Gil). As outras são standards americanos como There Will never Be Another You, Black Orchid, Night and Day, entre outros, que já tiveram centenas de versões, instrumentais (como as deles) ou cantadas, mas para as quais eles descobrem novas nuances, detalhes que as fazem soar como se fosse pela primeira vez.

Isso usando uma economia e um suingue que só Donato sabe dar ao que toca e que encantou Shank desde a primeira vez. Eles fazem cinco das oito faixas só com seus instrumentos e não há ânsia de um tocar mais que o outro, pelo contrário, um diálogo em que a malícia e o suingue do brasileiro encontra ressonância no jeito cool do americano. Nas outras, eles incluíram baixo acústico (de Luiz Alves ou Bruno Araújo) ou elétrico (Ed Motta) e bateria (Robertinho Silva ou Eloir de Moraes), que só completam a conversa. A única estranheza que Uma Tarde... causa é ter demorado tanto a sair. Tanto tempo que, eles repetiram a dose no ano passado, quando Shank voltou ao Rio e fez um show com o amigo, registrado em DVD que deve sair no segundo semestre. Aí, Shank deve vir ao Rio de novo para apresentar-se com o amigo.