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“No Problem”, ecos da passagem de um navegador russos

Era a tarde de Sexta-Feira Santa, e naturalmente um grande número de embarcações evoluia na Enseada de Ubatuba, mas uma pequena vela no horizonte chamou nossa atenção. Parecia um barco de dimensões muito reduzidas, não era comum estar tão longe. Quando ao fim do dia a embarcação finalmente venceu o forte vento Sul de proa e fez o último bordo para entrar na bacia do Tamoios Iate Clube, uma figura diferente movendo-se ágil em cima de uma casca de noz flutuante, acostou o trapiche com o profissionalismo dos velhos marinheiros.
Eugeny Gvodev, engenheiro naval russo, aposentado de 66 anos, deixara o Mar Cáspio havia onze meses, passando pelo Volga ao Mar Negro, depois o Mediterrâneo, Ilhas Canárias e daí um pulo de noventa dias até o Rio de Janeiro. Rumava o Sul, até Buenos Aires, onde pretendia decidir se chegava ao Pacífico pelo Estreito de Magalhães ou à Austrália pelo Cabo das Tormentas e Oceano Índico, para depois continuar dali sua solitária tentativa de circunavegação.
Não era sua primeira viagem. Em tempos passados, depois de quinze anos tentando obter junto ao governo comunista licença para ausentar-se do país, incomodou tanto que puseram fogo em seu primeiro barco, o GETAN, sete e meio metros de comprimento, com o qual cruzara o Mar Cáspio quarenta e oito vezes à espera da tal licença. O indomável russo não desanimou, e acabou fazendo um trato com um industrial que fabricava um pequeno veleiro de bolina e 5,5 metros (dezoito pés) de comprimento, algo como os monotipos semi-abertos que temos aqui. Os ventos brandos da Perestróika já relaxavam a dureza do antigo regime, e possibilitaram que ele finalmente partisse no frágil barquinho emprestado, batizado LENA, com apenas cem dólares no bolso.
Por quatro anos, de 92 a 96, velejou por mares distantes. Foi roubado no pouco dinheiro e levaram todo seu alimento, perdeu 32 quilos por fome, mas foi o primeiro homem a fazer a volta ao Mundo em veleiro de bolina e solitário. Continua a acreditar no ser humano: “passei por muitas dezenas de países, só fui roubado em três. E conheci muita, mas muita gente boa.” O LENA descansa atualmente em um museu de Moscou. Foi o único reconhecimento e ajuda que as autoridades russas prestaram ao navegador.
Agora, em sua nova empreitada, está no SAID, um botinho de apenas 3,70 metros (doze pés e alguns centímetros), 110 kg de chumbo na quilha rasa, armado em eslupe e construído por ele mesmo com sobras descartadas. Local da construção: a sacada de seu apartamento em um sobrado de MakhachKala, porto comercial e pesqueiro do Mar Cáspio onde reside com a mulher, três filhos e quatro netos. Na minúscula cabine consegue acomodar duzentos e cinqüenta litros de água e alimentos regradamente suficientes para agüentar as travessias maiores. Sempre com dificuldades de dinheiro, de comida, de equipamentos. Mas, se alguém faz as perguntas costumeiras, às vezes tolas, a resposta vem direta, em seu inglês limitado de pronúncia carregada: “I have not a big boat. Big boat, big problems. It is a small boat. Few water, few food. No eletricity, no rádio, no GPS, no motor, no woman, no sex. But no problem!”
E esse “no problem” foi a tônica de suas conversas nos dias que se seguiram. Eugeny, ao contrário do caráter esperadamente ensimesmado do marinheiro só, tem um gênio expansivo e não rejeita tiradas de humor aqui e ali. Um pouco de inglês e outro tanto de espanhol bastam para comunicar sua muito respeitável experiência e ir fazendo amigos por onde passa.
O tempo escoou rápido, e na quarta-feira seguinte, com a chegada de um vento fraco de Leste, fomos, o amigo Jerzy Bojarczuk e eu, em outro pequeno veleiro acompanhá-lo algumas milhas para a despedida. Ia já caindo a noite quando o SAID montou a Ponta Grossa. Ao vê-lo embicar a proa para o Sul, lembrei um artigo que ele me mostrara, escrito para a conceituada revista SAIL pelo também grande navegador australiano Serge Testa, o primeiro a circunavegar em um veleiro de doze pés, anos antes. Contando o encontro casual com Eugeny em sua primeira viagem no LENA, na ilha Cocos Keeling, no Índico, e a amizade então formada, Serge terminou o artigo descrevendo o que agora eu próprio sentia vendo a imagem do SAID lentamente esvaecendo no crepúsculo outonal: — “Quando deixamos a ilha junto com Eugeny, o LENA buscava o Mar Vermelho, e eu e minha mulher Robin em meu veleiro de aço de 60 pés estávamos seguindo um rumo mais ao Sul. À medida em que nossas rotas divergiam, o seu pequeno barco caia no vão das ondas crescentes, nós acenamos para Eugeny. Nesse momento, eu o invejei.”
José J. de Magalhães Netto
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