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O pano de fundo
De tempos em tempos a mídia americana consegue mobilizar o grosso da sociedade americana em torno de um drama pessoal. Já houve O.J. Simpson, jogador de futebol americano que supostamente matou a mulher e um outro sujeito a facadas. A mídia saturou o público com a cobertura de todos os eventos que envolviam o caso, do assassinato ao julgamento final e absolvição de O.J.
O caso do presidente Clinton com Mônica Lewinski é outro exemplo. O que estava em jogo ali não era o presidente como político ou representante de seus eleitores, mas uma pessoa famosa flagrada em um ato de adultério. Não obstante, um montão de gente tem o descabimento de chamar esses dramalhões de “questões políticas”. Agora, é a vez de Elián González, o garoto cubano que sobreviveu do naufrágio da balsa que o levava para os EUA.
Elián Gonzalez
Elián vinha com sua mãe, que morreu no naufrágio. Após ser resgatado no mar por um grupo de pescadores, o garoto foi entregue a alguns de seus familiares, diletos representantes da comunidade cubano-americana. A Flórida fica a apenas 90 quilômetros de Cuba, e foi para lá que fugiram a maioria dos refugiados da revolução. Gente de dinheiro, donos de cassinos, prostíbulos, agentes da polícia do ditador Fulgêncio Batista (como o pai da cantora Glória Stephan), donos de plantações de cana, etc; essa gente chegou à Flórida e em questão de anos se tornou o grupo político mais forte do Estado. Extremamente conservadores (sempre apóiam o partido republicano), esse grupo de refugiados tem sido o maior responsável pela política externa americana, em relação à Isla Verde. O embargo comercial instituído pelo Tio Sam contra Cuba talvez seja a
conseqüência mais visível e desastrosa do trabalho desses “valorosos desterrados”.
Política
O leitor deve estar se perguntando: como uma cambada de imigrantes “cucarachos” controla um setor da política internacional de um país tão grande e poderoso (e latinofobo e racista) como os EUA? Bem, a coisa funcio-na mais ou menos da seguinte maneira. Devido ao seu número, dinheiro e decorrente cacife eleitoral, a comunidade cubana da Flórida elege, ou ajuda a eleger, muitos deputados e alguns senadores para o congresso americano. Essa bancada é responsável por levar à frente, no congresso, todas as medidas que visam prejudicar o Crocodilo Verde (a ilha tem forma de jacaré). O resto do congresso parece não oferecer muita resistência. Afinal de contas, tanto republicanos como democratas, em geral, odeiam o comunismo e desprezam tudo que esteja ao sul do Rio Grande.
De volta ao pirralho
Acontece que o tal de Elián tem pai, que se separou da mãe e mora em Cuba. O pai, logicamente, pediu a volta do filho. Os parentes cubanos que acolheram o menino, contudo, viram nessa situação uma chance para fustigar o governo de Fidel. Primeiro disseram que o menino não queria voltar para Cuba, depois começaram a argumentar que não seria justo forçar o menino a abandonar uma vida de liberdade e oportunidades nos EUA pela opressão ditatorial e pobreza cubana. Desde o início, a comunidade dos desterrados começou a se mobilizar para evitar a volta do guri a todo custo. A coisa toda se tornou tão doentia que uma prima da mãe com cara de débil mental e um nome impronunciável, Marisleysis, tentou até substituir a figura materna e reclamar a posse do menino.
O pai
O pai do moleque acabou tendo que vir de Cuba para encontrá-lo em solo americano, depois de ter sacado que se não o fizesse os gringos não iriam liberar seu filho. Mesmo assim os parentes não largaram mão da criança. Se não bastasse isso, começaram a criar um monte de boatos difamantes a respeito do pai. Ao mesmo tempo, uma turba de manifestantes organizados pelos cubano-americanos passou a fazer vigília em torno da casa onde estava o menino com o intuito de impedir a sua saída a todo custo.
O resgate
A procuradora geral da república americana, Janet Reno, decidiu que os parentes não tinham razões suficientes para ficar com o menino. Isso contudo não foi o bastante para convencê-los. Reno finalmente mandou uma tropa da polícia de imigração, tipo SWAT, para resgatar o moleque de madrugada. Os caras só conseguiram fazê-lo após jogarem spray de pimenta e gás
lacrimogêneo na cara do pessoal que estava na casa. A cubanaiada ficou furiosa e ainda quer resgatar o menino por meios legais, antes que ele volte finalmente para Cuba.
João Feres Jr.
Political Science Department
Graduate Center - City University of New York
e-mail: jferes@worldnet.att.net
jferes@gc.cuny.edu
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