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Saúde: Microepidemias de Enterocolite: por Nelson Guimarães Proença
No início do mês de setembro, em uma Escola Municipal de Educação Infantil da Capital de São Paulo, as crianças ficaram doentes horas após terem comido a refeição servida pela manhã. No período que se seguiu tiveram náuseas, cólicas, começo de diarréia, febrícula. Os sintomas surgiram no correr da tarde e no dia seguinte. Dez crianças precisaram ser atendidas em hospital e uma ficou internada para receber maiores cuidados. Houve grande alvoroço, com repercussão na mídia. As mães fizeram ruidosa manifestação contra a administração da escola e o Distrito Policial abriu inquérito contra a diretora da EMEI, por supostamente ter fornecido alimentos envenenados ou deteriorados às crianças. Na mesma semana, por coincidência interessante, a prestigiosa revista científica “The New England Journal of Medicine” (1) publicava importante editorial chamando a atenção para um grupo emergente de vírus, os NORO-VIRUS, em ascendência em todo o mundo. Este vírus tem esta denominação por ter sido primeiramente descrito na cidade de Norwalk (NOR), no Estado de Ohio (O). Os Estados Unidos possuem vários centros de controle e prevenção de doenças infecciosas, aparelhados para o estudo das viroses. Todos esses centros estão conectados com o grande centro controlador localizado na cidade de Atlanta, o chamado “CDC de Atlanta” (Center of Disease Control). Centros semelhantes existem espalhados pelo mundo, sob patrocínio da Organização Mundial de Saúde. Graças a este suporte laboratorial tem sido possível acompanhar a evolução das noroviroses, nestes últimos 20 anos. Já se sabe que entre 1997 e 2000 os norovirus foram responsáveis por 93% dos 233 surtos de gastro-enterite, nos Estados Unidos. E por 85% dos 3714 surtos, na Europa. Estes surtos ocorreram em pequenas comunidades, como escolas, berçários, “campings”, viagens de cruzeiro marítimo, restaurantes, etc. O quadro clínico é o de uma infecção gastro-intestinal moderada. Alguma febre, pouco ultrapassando os 38 graus. Náuseas e talvez vômitos, diarréia (poucas vezes disenteria mais intensa), cólicas abdominais, uma desidratação moderada. É raro que ocorram casos mais alarmantes e que exijam internação e hidratação endovenosa. Não há tratamento específico e a recuperação se dá em um a três dias. O vírus é eliminado pelas fezes, daí a contaminação dos alimentos se dar quando são utilizadas águas servidas para irrigação de hortaliças. Também se dá a contaminação quando uma pessoa com esta infecção manuseia os alimentos que vão ser servidos. Típica “doença das mãos sujas”, como os antigos chamavam. O vírus é tão agressivo que bastam algumas partículas virais, presentes nos alimentos, para que a infecção se dê, com multiplicação destas partículas no organismo humano, iniciando-se a doença em caráter agudo. Os médicos prescrevem tratamento sintomático (por exemplo a febre e as cólicas) e garantem a hidratação adequada. É raro que ocorram complicações mais graves. Não havendo medicação específica, falou-se na produção de vacinas. Mas como fazer, se já foram descritos cinco genogrupos, cada qual com vários genótipos, que já somam 23 variedades? É verdade que o maior número de epidemias tem sido causado pelo genogrupo II, variedade genótipo 4. De qualquer forma, a produção de vacinas é um desafio que ainda não foi vencido. Que medidas preventivas podem ser adotadas? A primeira é fiscalizar os cinturões verdes das cidades, verificando como é feita a irrigação de hortaliças. A segunda é afastar do trabalho da cozinha toda pessoa que estiver com sintomas de gastro-ente-rocolite aguda. Ressalte-se que este afastamento deve se estender por uma semana, pois os norovirus continuam sendo eliminados nas fezes ainda por alguns dias após a cura clínica. Não se sabe se a micro-epidemia a que me referi, na abertura deste artigo, foi produzida por um norovírus. Vamos imaginar que o Instituto Adolfo Lutz, chamado para investigar o agente infeccioso, tenha concluído que se tratava mesmo de surto por norovírus. A diretora da EMEI poderia ser considerada culpada? Eu respondo com um sonoro não! Esta diretora certamente não tem nenhuma informação sobre o tema que estamos aqui analisando. Se estivesse bem informada certamente estaria solicitando garantias de que os alimentos fornecidos para as refeições são confiáveis. Também teria afastado do trabalho seu funcionário com sintomas de infecção gastro-intestinal. Se mesmo assim surgisse uma pequena epidemia, guardaria os alimento em embalagens especiais refrigeradas e chamaria o Instituto Adolfo Lutz para avaliar a situação. Saúde pública ou Polícia? Em conclusão, precisamos entender que uma ocorrência como esta na cidade de São Paulo é um problema de Saúde Pública e não um caso de Polícia. NOTA: Dr. Nelson Guimarães Proença é médico dermatologista, ex-Presidente da Associação Paulista de Medicina, da Associação Médica Brasileira e está radicado em Campos do Jordão. |
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