Saúde: Alerta: Ninhos de pássaros no forro, coceira à vista!


por Nelson Guimarães Proença*

Nas últimas semanas do Inverno e nas primeiras semanas da Primavera retornam a nossa cidade revoadas de pássaros, em busca de local apropriado para cumprir o ciclo anual de acasalamento. Cada casal dá então início a sua primeira tarefa, a construção do ninho. Ou, o que é mais prático, voltam a ocupar o ninho que foi abandonado no ano anterior.

Pássaros de hábitos silvestres buscam o verde das árvores e arbustos e aí se instalam. Mas os pássaros de hábitos urbanos buscam os forros das residências, que é local protegido, ideal para cumprir seu ciclo biológico. É particularmente o caso das andorinhas, mas também das maritacas, freqüentadoras habituais de forros, onde cada casal faz seu ninho. Por vezes são muitos, multiplicam-se, em uma única residência.

Estes pássaros são portadores de parasitas que os acompanham, onde quer que estejam. São parasitas muito pequeninos, escuros, que, para seu tamanho, até que se movimentam depressa . São chamados “piolhos de pombo”, “piolhos de passarinho”, e pertencem cientificamente ao grande filo Acaridae. Neste filo estão ácaros que são nossos velhos conhecidos: os pedículos (piolhos do couro cabeludo); os chatos (causadores da ftiríase pubiana); os sarcoptes, causadores da sarna. Também todos os carrapatos. Que turminha bem incômoda, a destes ácaros!

Pois bem, o que acontece com os piolhos, que estão infestando os ninhos, quando os pássaros voltam para a natureza? Premidos pela necessidade de procurar seu alimento, o sangue, os ácaros descem do forro das casas e vão buscar os moradores, nos dormitórios. Acabam encontrando estes moradores, que são picados e sugados.

Do ponto de vista clínico, as lesões produzidas são quase indistinguíveis das picadas de insetos (pernilongos, pulgas), mas provocam muito mais coceira e são muito mais duradouras. As pessoas que são picadas ficam surpresas, desorientadas, pois não conseguem encontrar e ver quem foram os seus agressores.

Mesmo em uma consulta médica o caso pode não ser corretamente diagnosticado. Ele fica simplesmente rotulado como “uma alergia”, de causa não esclarecida. Ou então é interpretado como mais um caso de escabiose, a sarna humana. Aliás, é muito grande a semelhança entre as lesões provocadas pelo piolho de pássaros (um ácaro), e as lesões provocadas pelo sarcoptes (outro ácaro), justificando plenamente a dificuldade para estabelecer o diagnóstico correto. A propósito, é bom recordar que estamos atualmente com uma grande quantidade de casos de escabiose, o que mascara os casos de picadas por piolhos de pássaros.

É preciso que as pessoas coloquem “telas passarinheiras” em todo o contorno do telhado de suas casas, impedindo a entrada das andorinhas ou de outros “visitantes”. Mais ainda, é fundamental que façam anualmente uma revisão da situação do forro, removendo os ninhos que encontrarem e procedendo à dedetização do local.

É importante chamarmos a atenção da população para este tema, pois a solução do problema não está nas mãos dos médicos, mas sim dos moradores, em cada residência.

NOTA: Dr. Nelson Guimarães Proença é Professor Emérito de Dermatologia.