Quem não gostaria de voltar a ser criança neste mundo tão injusto? No próximo dia 12, comemora-se o dia delas. Com tantos brinquedos enfeitando as vitrines das lojas, surge na memória dos adultos as lembranças da infância. De uma época que não voltará, quando não se tinha preocupação com nada e o único dever era compare-cer na escola e depois ir se divertir.
A invasão dos jogos eletrônicos deixou de lado a magia do livre brincar. Sem medo de nada e na mais pura inocência – quase sempre com os pés descalços – o único dever era pegar uma bola e colocá-la para rolar. Ao final de um dia com muito tempo livre, restava apenas entrar dentro de casa, tomar um bom banho e ter uma bela noite de sono.
Em meio a tanta alternativa tecnológica para brincar, as tradicionais formas são deixadas e o sedentarismo acaba sendo uma conseqüência da brincadeira fácil, que não necessita nem sair de casa. Jogos na internet acabaram criando uma verdadeira geração de viciados em computador. A evolução, neste caso, foi prejudicial e transformou as crianças em uma geração que está acima do peso, diferente de outras épocas.
Mais que ficar vidradas na frente da tela de uma televisão ou computador, as crianças devem ser estimuladas a brincar com as formas tradicionais, participar de atividades como esconde-esconde, pega-pega, queimada e com isso ajudar no desenvolvimento dos próprios músculos.
O mundo contemporâneo faz com que os pais trabalhem mais que o normal, quando costumeiramente só o homem costumava chegar tarde, agora também a mãe sai cedo para enfrentar um dia de batente e só retorna quando o sol já foi. Quando volta ao lar, resta apenas uma atividade interna com as crianças e depois ir dormir. A mudança do convívio familiar é uma conseqüência da evolução da sociedade, onde se exige di-nheiro para tudo e todas as atividades têm os seus cifrões. As crianças acabam ficando com avós e parentes para que os responsáveis possam trabalhar e ter como sustentar a família.
César Zangrande é subeditor do jornal Gazeta do Litoral
SuperEscola: exemplo, sem demagogia
Fabrício Tineo
DHá dez anos trabalho na imprensa esportiva. Passei por órgãos de imprensa escrito, televisivo, radiofônico e on-line. Cobri torneios mundiais, pan-americanos, sul-americanos, brasileiros, paulistas, regionais e municipais. Vi e ouvi muita coisa. Presenciei e discuti outras tantas.
Mas nenhuma dessas situações me impressionou tanto quanto o programa SuperEscola, que conheci em Praia Grande. Não importa quem seja o pai da idéia, mas sim, que ela foi posta em prática e atualmente movimenta mais de 16.500 crianças. Trabalho nesta Cidade, mas se exercesse a função em Júpiter, ainda admiraria a essência e a autenticidade do programa.
O SuperEscola une educação e esporte, dupla que jamais deveria ser separada. Os alunos, de 7 a 14 anos, que estudam de manhã, praticam esporte à tarde, e vice-versa. Os profissionais cobram dos estudantes responsabilidades educacionais, como freqüência e notas, e esportivas, como presença e desenvolvimento. Fantástico. Funcional. Preciso.
Uma idéia simples, de uma Cidade brasileira relativamente pequena. Um modelo norte-americano de ser, que tornou aquele país a maior potência esportiva do planeta. Alguns dirão, mas e a China, vencedora da última Olimpíada? Não vou entrar em questões políticas, mas não podemos considerar China, Rússia e Cuba, uma vez que nestes territórios, esporte não é opção, mas sim meio de saída do exército e de obrigatoriedade.
Mas o quê tornou o SuperEscola especial em minha visão? A simplicidade. Possibilitar esporte a todas as crianças de forma igualitária, com qualidade e infra-estrutura. Não é apenas dar uma bola para a garotada e dizer: “Se vira aí, só tomem cuidado para não quebrar nada”.
Não. É competente. Profissionais de excepcional qualidade integram o programa. Denison Soldani, tetracampeão mundial de judô; Nélson Kitahara, árbitro internacional de ginástica; Cristina Pacheco, campeã pan-americana de vôlei; Jorge Yoshimura, 7º dan de caratê; Osvaldo Pinheiro, ex-técnico de basquete da Unisanta; são alguns exemplos. Há ginásios, pista de atletismo, piscina, aparelhos de ginástica, materiais esportivos à disposição.
Nunca acreditei inteiramente na idéia de inclusão social por meio do esporte. Enganei-me. É possível. Não de forma utópica, do jeito ‘seremos todos amigos’, mas de forma real. Conheci pais que tiraram os filhos de clubes e academias privados para colocá-los nas escolinhas da Prefei-tura. E o melhor, a pedido das próprias crianças.
Pouco importa quantos pequeninos se tornarão atletas. Pouco importa quantos deles serão profissionais. Importa que eles agora têm a oportunidade de conhecer o esporte, apreciá-lo e se especializar naquilo que mais gostam. Ou seja, as crianças estão brincando, se divertindo, se enturmando.
Tomei a liberdade de escrever este artigo apenas para registrar minha admiração pelo SuperEscola. Tomara que isto se dilate. Que outras cidades do País assumam compromissos seme-lhantes. Que estudantes de todos os níveis (fundamental, médio, universitário, profissionalizante) tenham esta oportunidade. Oxalá política esportiva pública deixe de ser quadrienal e eleitoreira e passe a ser construtiva e exemplar..
Fabrício Tineo é jornalista e radialista especializado em esportes