Respeitável circo: os risos
em meio às tristezas do mundo
Paola Vieira e Flávio Lopes
Tradição passada de pai para filho por sete gerações, o circo Orlando Orfei percorre o mundo inteiro resgatando a ingenuidade, alegrias e sonhos que só um espetáculo circense pode proporcionar. No comando, o patriarca italiano, Orlando Orfei, que, aos 86 anos, faz questão de se apresentar e deixar sua mensagem ao “respeitável público”. Mesmo tendo sofrido um derrame a quase seis anos, Orfei se recuperou, e hoje, apesar da dificuldade em andar, mantém aceso seu amor pelo circo. Toda noite de espetáculo se torna o maestro do númDança das Águas.
Exemplo para os filhos e admirados pelos funcionários, Orfei cultiva a humildade e não se vangloria de suas experiências, que lhe renderam encontros e elogios até de Papas.
Arquivo Orfei apresenta o espetáculo Dança
das Águas
Orlando Orfei; foi condecorado pelo Governo da República Italiana como Cavalheiro Oficial da República. No Rio de Janei-ro, São Paulo e Goiânia é cidadão Honorário pelo Estado e Cidadão Carioca pelo Município do Rio de Janeiro. Foi recebido também pelos Papas Pio XII, Paulo XVI e João Paulo II, além de cinco vezes pelo Papa João XIII. Após temporada de um mês em Praia Grande, o circo Orlando Orfei está em Guarujá levando diversão para crianças e adultos.
GL- O circo Orlando Orfei é um dos mais tradicionais do mundo. O senhor poderia contar um pouco dessa história?
Orfei - Mais ou menos, em 1822, um padre católico italiano deixou a batina e se tornou concertista, porque era um grande músico. Conheceu uma jovem e os dois se apaixonaram, mas a família disse não, porque ele era um ex-padre. Então os dois fugiram e se refugiaram com um bando de ciganos que estavam viajando pela Itália, naquele momento. Três anos depois, em 1825, nasceu o primeiro Circo Orfei. Os ciganos passaram a paixão do circo, que foi repassada de pai para filho até a quinta geração, que sou eu. Antigamente o circo não tinha lona, era aberto, ou dentro de salões ou nas casas dos nobres. A lona só chegou por volta de 1830.
GL - E seus filhos também trabalham no circo?
Orfei - Apenas um filho não está no circo, ele é engenheiro. Meus outros cinco filhos estão aqui, até o neto que é a sétima geração e já vem a oitava geração, pois uma das netas está grávida.
GL - Qual foi o primeiro número que o senhor apresentou no picadeiro?
Orfei - No primeiro número, eu tinha 5 anos, era o palhacinho. Meu irmão me punha dentro de uma calça grande e fazia uma barrigona. Parecia grávido. Quando subíamos ao picadeiro, ele punha a mão dentro da barriga e me tirava para fora. E assim eu surgia, vestido como ele, mas bem pequenini-nho. Esse foi o primeiro número da minha carreira: tirar um pa-lhaço da barriga de outro. Depois fui malabarista, ciclista acrobático, mágico, fui o primeiro locutor de circo, explicando ao público o que estava acontecendo. E finalmente domador, um dos melhores do mundo.
GL - O senhor apresenta um espetáculo chamado Águas Dançantes, como surgiu?
Orfei - É o número mais lindo mundo. Estreamos a primeira fonte dançante há 53 anos na Itália e foi um sucesso enorme. A fonte continua sendo o número mais forte do espetáculo. É uma fonte de água de 12 metros operada por mim. É feita uma dança sincronizada. A primeira vez no Brasil foi há 38 anos e ainda é o número mais aplaudido, é um número diferente dos que as pessoas costumam ver no circo.
GL - O que mais tem o circo?
Orfei - Tudo aquilo que pode ter de bom dentro de um circo nós temos. Tem palhaço, malabarista, equilibrista, saltadores, etc.
GL - Defina a vida no circo?
Orfei - Eu não trocaria a vida no circo, por exemplo, por um cargo de presidente da República. Nossa vida nômade é muito interessante, hoje para cá, amanhã para lá. No meio da lona, tenho tudo aquilo que quero, pois me sinto tranqüilo e feliz. Não me falta nada, já que tenho muitos amigos. Temos uma comitiva de 100 pessoas, onde não tem nenhum desentendimento ou briga. Penso que o circo é um dos poucos ambientes que a amizade ainda é cultivada. A amizade é a coisa mais importante da vida. Creio que a minha força no passado foram as amizades que eu consegui criar. Independente da condição, amigo será sempre amigo.
GL - Antigamente os circos apresentavam números com animais. Hoje a lei proíbe. O que o senhor acha da proibição?
Orfei - O Brasil é um dos poucos países no mundo que proíbe o trabalho dos animais no circo, com a mentira que nós os maltratamos. Não é possível que nós maltratamos os animais que são nossos companheiros de trabalho. Nós os amamos e dizem que nós os maltratamos.
GL - Como as cidades têm recebido o circo Orlando Orfei?
Orfei - Elas têm recebido sempre muito bem. Temos todas as nossas permissões concedidas. Na verdade, é um público que gosta de circo e acima de tudo muito educado. Como o italiano, o brasileiro também sabe receber muito bem o circo.
GL - Qual a infra-estrutura que os municípios têm ofere-cido?
Orfei – Um exemplo é essa praça que estamos instalados aqui no Guarujá, pois é um local amplo e asfaltado. Não encontramos nenhuma dificuldade.
GL - O senhor se identifica com o povo brasileiro?
Orfei - Gosto muito do povo brasileiro, porque são os mais parecidos com os italianos em todo mundo. Tem países que para fazer amizade com uma pessoa é tão difícil, complicado. O brasileiro logo no primeiro dia faz amizade.
GL - O circo sempre encantou muito as crianças, mas a-tualmente existe muita tecnologia. Isto prejudica?
Orfei - O circo agrada crianças de 2 a adultos de 97 anos. As pessoas se acostumam com essas máquinas, tecnologia e essas diversões acabam virando uma rotina. Já o circo não, qualquer menino tem o sangue circense nas veias, porque dá cambalhota, faz brincadeiras que existem no circo. Graças a Deus o circo é imortal como todas as coisas boas, o balé, o teatro. Circo é forte, é baseado na habilidade de seus filhos.
GL - Existe muita procura de profissionais com o intuito de ingressar na carreira?
Orfei - A maioria inicia no circo porque já faz parte da família circense. Não encontro bons artistas que venham de alguma escola de circo. O grande artista nasce em uma família do circo, ou seja, de geração para geração. O pai ensina o filho ou o irmão ensina o irmão, sempre foi assim.
GL - Qual é a preocupação com relação à segurança dos artistas e do público?
Orfei - Nós temos seguro para o País todo, contra acidentes em geral, pois vivemos do circo. O circo progrediu muito com a minha chegada e de um modo geral evoluiu bastante. Melhorou muito a qualidade do espetáculo.
GL - E as apresentações levam quanto tempo para ficarem prontas?
Orfei - Um filho circense que vai fazer um número chega estudar dez anos para fazer cinco minutos de apresentação para o público. É muito difícil e relativamente perigoso. Quando se tem 99,9% de chance de executar o número em segurança, não arriscamos a vida da nossa gente.
GL - Um espetáculo dura quanto tempo?
Orfei - Duas horas a duas horas e meia. São cerca de 25 números. São 100 pessoas trabalhando, sendo aproximadamente 40 artistas e estrutura para 1,6 mil pessoas.
GL - O senhor tem muito amor pelo circo, é por isso que continua se apresentando?
Orfei - O divertimento das pessoas é o motivo mais forte do amor que temos pelo nosso trabalho. Quando se tem um mundo deprimen-te, não é fácil fazer o palhaço no circo. Fazer rir é mais difícil do que chorar.
GL - O senhor tem fama de ser modesto, o que já fez que se orgulha?
Orfei - Já tive milhões de dólares no meu bolso e já me encontrei sem dinheiro para comer com a minha gente. Eu penso que se deve ser sempre o mesmo. Se eu tenho dinheiro ou não é coisa relativa.
GL - O senhor distribuía convite para os presidiários, por quê?
Orfei - Entrava nas penitenciárias e levava para os presos ingressos para que eles mesmos entregassem a suas famílias. Penso que entregando ao preso, ele tem a possibilidade de presentear a sua família e falar: vão se divertir. Já fiz espetáculos beneficentes aos deficientes, idosos e crianças carentes.
GL - Há algum momento especial na carreira que o senhor gostaria de destacar?
Orfei - O momento mais importante para nós, como diria Charlie Chaplin, é o sorriso no lábio de uma criança. Enfim, temos milhões de crianças sorridentes aqui dentro do circo, que se divertem a todo instante.
GL - O senhor já recebeu elogios do Papa. Como foi este momento?
Orfei - Papa Giovanni conversou comigo e disse: ‘Vocês vão todos trazer serenidade às famílias e o vosso circo é um apostulado de paz.’ Eu não sou diretamente religioso, nem o contrário, mas sempre cultivo a modéstia. Quando um homem diz muito que é isso ou aquilo, ele já sabe que não é. Para que dizer? O mais inteligente sabe que vai morrer e não se deve dar importância às coisas materiais.
GL - O que você acha da Escola Picadeiro?
Orfei - Diga-me um artista grande que saiu dessa escola. Um verdadeiro artista. Estas escolas fizeram um distúrbio no trânsito para os motoristas, fazendo malabarismo na frente do carro. Malabarismo é uma coisa séria e essas escolas parecem que não são sérias. Eu não vi um artista verdadeiro, digno dessa palavra, que saiu daquela escola. Não tenho nada contra as escolas, sempre é bom a diversão. Mas a melhor escola é o circo que tem o pai com o filhos, irmãos com irmãos, que um pai trabalha 5, 6, 7 anos para fazer um número com o filho que dura cinco minutos.
GL - Você é feliz com seu trabalho?
Orfei - Sou feliz no meu ambiente e é importante porque nós vendemos a alegria, a felicidade. Não é fácil vender alegria. No momento que estamos com tantos desprazeres, com tanta dor que existe na Terra, dar cinco minutos de felicidade e alegria na alma de outra pessoa é muito importante. Esse é o primeiro motivo para nós circenses é a alegria que nós passamos aos nossos semelhantes.
GL - Os meios de comunicação fazem a divulgação correta do propósito do circo?
Orfei - O grande sucesso que temos no mundo é em virtude da Imprensa. A mídia gosta de circo e faz propaganda da arte. Não temos nada do que lamentar.
GL - Gostaria de deixar um recado para o público?
Orfei - Enquanto muitas ve-zes a diversão se baseia na violência, sexo e pornografia, o circo ficou puro como a poesia, mostrando ser um espetáculo que cada pai quer encontrar quando decide se divertir com seu filho.