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    Especial - Fundação Casa
    Disciplina: chave para recuperação de jovens
    Fotos: Richard Aldrin

    Fundação Casa de Praia Grande ficará em área afastada da zona urbana

    César Zangrande

    Disciplina é a palavra chave para a Fundação Casa recuperar jovens que chegaram a cometer delitos como tráfico de drogas e homicídio. A unida-dede de Peruíbe, que tem gestão compartilhada entre o Estado e a Ong Associação Padre Leonardo Nunes, possui 53 jovens de 12 a 21 anos que realizam atividades pedagógicas para despertar neles a idéia de que o caminho da margina-lidade não leva a nada.

    Duas unidades no mesmo formato serão construídas em Praia Grande, em área não urbanizada na divisa com São Vicente. O Estado aguarda a doação oficial de terreno por parte da Prefeitura.

    A diretora da unidade de Peruíbe, Maria Margarida da Costa Ramos, explica que ninguém fica ocioso. Como são poucos adolescentes no novo modelo adotado pelo Estado, todas as atividades são controladas pelos funcionários. “A unidade compartilhada tem menos adolescentes, então temos contato direto com eles e um vínculo maior, com isso você consegue fazer um atendimento quase individual. Na unidade plena (antiga), a quantidade de adolescentes é maior e há dificuldade com o vínculo. Aqui não tem menino ocioso”, explicou.

    Integram o quadro de funcionários médico, pedagogo, dentista, enfermeira, nutricionista e profissionais de suporte na segurança, cozinha e lavanderia. Apoio religioso também é ofe-recido por meio da atuação de três ministérios evangélicos.

    A entrada ou saída dos jovens nos vários setores da unidade é feita em fila, com as mãos para trás, sempre pronunciando frases como “Sim, senhor”, em ato de respeito aos funcionários do local.

    A capacidade do local é de 40 jovens na Unidade de Internação (UI), local destinado aos condenados pela Justiça, e mais 16 na Unidade de Internação Provisória (UIP), onde ficam os que aguardam julgamento. Atualmente são 39 jovens na UI e 14 na UIP.

    No geral, os jovens ficam de oito meses a um ano em recuperação. A mudança de hábito é uma barreira a ser vencida. “Teve um adolescente que sentia sono o dia inteiro. Um dia ele disse que dormia de dia e ficava de noite na rua... É um trabalho grande para recuperar e mudar hábitos”, afirmou Maria Margarida.

    "A unidade compartilhada tem menos adolescentes, então temos contato direto com eles e um vínculo maior, com isso você consegue fazer um atendimento quase individual." Maria Margarida Ramos, diretora da Fundação Casa de Peruíbe

    Família complementa o processo pedagógico

    Atividades pedagógicas param para almoço: antes de comer oração e reflexão

    A participação de familiares é fundamental no processo pedagógico. As visitas são realizadas aos sábados e domingos, no caso de parentes e às terças, quando os internos podem ver esposas e namoradas.

    Segundo a responsável pelo setor psicossocial, Rosalina Miranda, quando o jovem é integrado na unidade, as assistentes sociais e psicólogas têm que garantir direitos como o contato familiar. “O contato com a família é o fator que mais ajuda na recuperação dos adolescentes. Pedimos para a família sempre nos acompanhar e ajudar na recuperação, participando das visitas.”

    A coordenadora pedagógica Elisa Garcia explicou que é necessário manter os adolescentes em atividade durante todo momento. “Dentro da fundação é oferecida a escolarização formal que eles teriam fora. Aqui é algo muito mais precioso porque é um atendimento com um número menor de alunos, com professores do Estado, nos moldes da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

    Normalmente o adolescente chega com um defasagem de escola e idade muito grande. Há uma dedicação muito grande na área pedagógica-educacional para recuperar nos adolescentes o gosto de estudar e aprender”, destacou.

    A instituição ensina Informática Profissionalizante. Há plano de implantar o curso de Alimentação Básica.

    Adolescente quer cursar faculdade

    Nos trabalhos manuais ficam registrados nomes de filhos, namoradas e esposas

    Fica difícil imaginar que as mãos que já empunharam armas de fogo para matar e praticar roubos, possam hoje fazer crochê em uma das oficinas pedagógicas da Fundação Casa de Peruíbe, que também oferece aulas de informática. Na estampa dos trabalhos são gravados nomes de pessoas que deixaram saudades como filhos, esposas e namoradas.

    Do grupo da unidade de internação, dois jovens fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no dia 31 de agosto, dois dias antes desta reportagem. A prova é para jovens que estão concluindo ou já concluíram o ensino médio e a nota pode ajudar a entrar na faculdade.

    Com 19 anos, um dos internos, que está na unidade há seis meses após cometer homicídio, pretende fazer faculdade de Educação Física. “Gosto muito de esporte. Curto bastante a quadra que temos aqui. Praticamos todos os tipos de atividades como pebolim, xadrez, pingue-pongue, vôlei, basquete. As minhas preferidas são futebol e xadrez, com elas esqueço tudo lá fora”, disse.

    O jovem faz planos para quando terminar a internação, indício de que o período serviu para reavaliar a infração cometida. “Quando sair daqui pretendo continuar com a minha vida. Já terminei os estudos. Foram uns cinco minutos que deram em mim e aconteceu, mas dá para mudar. Aqui estou aprendendo a ter paciência, algo que não tinha lá fora e também a me expressar melhor”, ressaltou o mesmo jovem.

    Ao ser questionado sobre o futuro, outro interno, de 17 anos, que também fez o Enem, afirmou que pretende entrar no mercado de trabalho e mudar de vida. O garoto entrou na unidade por roubo. “Gostaria de fazer um curso de torneiro mecânico, que mexe com peças. É uma boa. Aqui estou melhorando e estudando. Quero sair e fazer coisas diferentes que eu fazia lá fora.”

    Diretoria preocupa-se com a inclusão profissional

    Quadra coberta é utilizada para várias atividades esportivas como futsal

    Uma preocupação da diretoria da unidade de Peruíbe é após o período de internação. Qual atividade o jovem poderá exercer para viver de forma digna? Tendo em vista o futuro, a direção levou a questão ao Fórum de Peruíbe, para discutir com juízes e promotores de Justiça a inserção no mercado de trabalho.

    A diretora Maria Margarida da Costa Ramos saiu satisfeita após uma reunião, dia 1º de setembro. “O Fórum vai iniciar um movimento para colocar o jovem no mercado de trabalho após sair da Fundação. Ficamos felizes da vida porque era um sonho, já que o mercado de trabalho é pequeno”, citou.

    Tendo em vista a qualificação profissional, outro plano da Fundação Casa de Peruíbe é implantar um curso de manutenção de bicicletas. “As bicicletarias precisam de muita mão-de-obra. Caso o adolescente consiga sair conseguindo concertar uma bicicleta já é meio caminho andado”, afirmou a coordenadora Elisa Garcia.

    Tentamos passar o quanto é importante a escolarização e qualificação para que, ao sair,
    ele tenha o pensamento diferente e a esperança de estar trabalhando em alguma coisa.”
    Elisa Garcia, coordenadora pedagógica da unidade

    A funcionária faz uma avaliação positiva da nova visão de trabalho da Fundação Casa, com a gestão compartilhada. “Praia Grande e outras cidades onde serão implantadas as unidades terão muito a ganhar porque o trabalho é muito bom e é produtivo para o público alvo, que são os adolescentes”, disse.

    Recanto Vida: 12 anos no combate aos entorpecentes

    Reeducandos são preparados para mercado de trabalho com curso de informática

    A gestão compartilhada da Fundação Casa de Peruíbe é feita por meio de um contrato com a Ong Associação Padre Leonardo Nunes, que trabalha há 12 anos na Cidade com a recuperação de dependentes em drogas e álcool, em uma clínica particular.

    O presidente da entidade, Marcelo Lourenço, disse que a mudança de visão do Estado foi fundamental para que a Ong participasse do projeto. A associação busca a conscientização por meio de palestras. “Em 2007 quando fomos procurados para fazer parte da gestão, fiquei preocupado com a idéia, mas quando conheci o novo modelo percebi que o foco é parecido com o que já fazíamos: a diferença é que aqui cumpre sentença e na clínica eles estão voluntariamente.”

    Na opinião de Lourenço, a nova forma de administrar dá mais dinamismo ao processo de recuperação. “O Estado, por si só, não consegue suprir a demanda exigida. Com o processo de gestão compartilhada, o Estado vê que a sociedade civil é o fator principal para isso dar certo porque há liberdade para trabalhar. Na gestão plena o processo fica engessado”, destacou Lourenço.

    Para ele, a idéia poderia ser levada também às penitenciárias, em um modelo parecido. Com isso, a administração dos complexos seria facilitada. “Teríamos um grande resultado”, finalizou.

    13/09/08
    Games
    Felipe Anderson & Gustavo Anastasio© 2006 • Editora Gazeta de Praia Grande • Direitos Autorais Reservados