O paulistano Júlio Medaglia define o início de sua trajetória musical como "um puro acidente". Seu primeiro contato com um instrumento, um violino infantil, se deu em casa, mas não por meio de seus pais. Uma empregada, Magali Sanches, que depois viria a se tornar atriz de rádio-novela, foi quem introduziu esse pequeno instrumento na vida do futuro maestro. Pouco tempo depois, Júlio Medaglia iria tomar aulas com uma prima da mãe, ex-violinista da orquestra do Cine Avenida, ainda do tempo do cinema mudo...

Júlio Medaglia tocando violino na Lapa, anos 50.
Júlio Medaglia regendo pela primeira vez, aos 18 anos, na Bahia.

Um dia, já participando de uma orquestra de amadores na Lapa paulistana, conhece o então oboísta Isaac Karabitchevsky, que o leva para a Escola Livre de Música, onde lecionava um dos grandes mentores musicais da época, Hans Joachim Koellreutter. Seu contato com esse mestre alemão lhe abre um novo e amplo universo musical. Quando, no final dos anos 50, Koellreutter muda-se para Salvador, para montar os Seminários de Música da Universidade Federal da Bahia, Júlio Medaglia o acompanha. Lá, se aperfeiçoa em regência, inicialmente coral e depois sinfônica. Surge, então, com a passagem, por Salvador, do Diretor da Escola Superior de Música da Universidade de Freiburg, Artur Hartmann, um convite para estudar regência na Alemanha.

Antes, porém, de deixar o país no inicio dos anos 60, o maestro presta, em São Paulo, sua primeira importante contribuição à Cultura Brasileira ajudando o musicólogo teuto-uruguaio Francisco Curt Lange a divulgar, por meio de concertos, artigos e palestras, a redescoberta de importantes partituras do "Barroco Mineiro", o que antecipou em um século a história da música erudita brasileira.

Júlio Medaglia e o musicólogo Francisco Curt Lange.
Júlio Medaglia em Taormina com Sir John Barbirolli, 1964.

Aproveitando a oportunidade de estudar no Velho Mundo, Júlio Medaglia toma aulas de regência sinfônica em Taormina, com Sir John Barbirolli, um dos mais respeitados maestros do século 20. Em 1965, forma-se, com distinção, pela Academia de Freiburg, em regência sinfônica. Nesse período, cursa os festivais de música contemporânea de Darmstadt, com dois ícones da música erudita da segunda metade do século 20, Stockhausen e Boulez.

No final dos anos 60, Júlio retorna ao Brasil e participa ativamente, com Solano Ribeiro, da organização dos célebres Festivais da Record. Nessa época, culturalmente excitante em todo o mundo, participa dos mais variados movimentos artísticos de vanguarda, entre os quais o da Poesia Concreta, "oralizando" poemas com os irmãos Campos e Décio Pignatari. No final de 1967, escreve o revolucionário arranjo para a canção "Tropicália", de Caetano Veloso, que marca o início do Tropicalismo.

Em 1968, na Record, a mais importante estação de TV da época, produz o "Opus 7", um dos mais criativos e bem sucedidos programas de música clássica da televisão brasileira.

Júlio Medaglia e Roberto Carlos no programa Opus 7
Júlio Medaglia e a Orquestra Cordas de São Paulo preparando-se para uma apresentação pouco convencional na fábrica Brown Boveri. 1970.

Em 1969, é convidado por um grupo de elite de instrumentistas para fundar e dirigir a orquestra Cordas de São Paulo. Com esse conjunto, viaja por importantes cidades brasileiras, grava um disco (restauração de uma obra de André da Silva Gomes, mestre-de-capela da cidade de São Paulo do início do século 19) e faz um programa semanal na TV Cultura, o qual, por sua linguagem revolucionária, ganha, entre outros, o Prêmio Roquette Pinto.

De volta a Europa, no início dos anos 70, rege em diversas rádios e importantes palcos, incluindo a célebre Philharmonie, de Berlim. Nessa época produz programas de rádio e TV sobre música brasileira para a televisão alemã. Em 1975, a convite de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o "Boni", volta ao Brasil para integrar os quadros artísticos da Rede Globo, da qual torna-se, posteriormente, Supervisor Musical Artístico. Ali, compõe também trilhas sonoras para 20 Casos Especiais. Nessa época, dirige a Rádio Roquette Pinto do Rio, a emissora cultural daquela cidade.

Júlio Medaglia regendo a orquestra da Rádio de Baden-Baden. Alemanha, 1972.
Júlio Medaglia contracenando com Wilson Grey no filme O Segredo da Múmia, 1983.

Nos anos 80, dirige, por 4 anos, o Theatro Municipal de São Paulo. Nesse período compõe as trilhas sonoras para os seriados de Walter Avancini, para a TV Globo, entre os quais, "Anarquistas Graças a Deus", "Avenida Paulista", "Rabo de Saia" e o premiadíssimo "Grande Sertão Veredas". Nessa década, além de ministrar cursos sobre trilha sonora na USP e na FAAP, participa, também, no Rio, do cinema "marginal", ao lado de figuras como Ivan Cardoso, Luis Otávio Pimentel, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Neville de Almeida e outros. Sua participação como autor da trilha sonora e ator do filme "O Segredo da Múmia" lhe rendeu os prêmios de "melhor trilha" no festival de Gramado e de "melhor ator coadjuvante" pela Associação Paulistas de Críticos de Arte de São Paulo. Em 87, inicia um programa diário na rádio Cultura FM de São Paulo ("Pentagrama" e, depois, "Tema e Variações"), trabalho que mantém, ininterruptamente, até os dias de hoje.

No início dos anos 90, assume a Direção Artística do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e, em seguida, a Regência Titular da orquestra do Teatro Nacional de Brasília. Na mesma época, dirige o Festival de Inverno de Campos do Jordão, revolucionando esse tradicional evento. Os anos 90 marcam, também, sua participação em grandes espetáculos cênico-musicais, como: "Carmina Burana", de Carl Orff, montada para mais de 100 mil pessoas na praia de Copacabana; a Ópera "Aida", de Verdi, em 6 estádios de futebol de capitais brasileiras; a "História do Brasil", encenada e musicada em 6 palcos simultaneamente na Pedreira, de Curitiba; e a ópera afro-brasileira "Lídia de Oxum", de Lindembergue Cardoso e Ildázio Tavares, levada às margens da Lagoa de Abaeté, em Salvador, para um público de cerca de 30 mil espectadores.

Júlio Medaglia regendo a orquestra do Festival de Inverno de Campos do Jordão, 1991.
Julio Medaglia regendo no Teatro Amazonas. Manaus, 1998.

No final dos anos 90, Júlio Medaglia surpreende mais uma vez e ganha as manchetes do Brasil e do mundo ao montar uma orquestra filarmônica de nível internacional em plena floresta amazônica. Por ocasião das celebrações do centenário de morte de Carlos Gomes, regeu "O Guarani", na Ópera Nacional da Bulgária, evento gravado em CD, vídeo e transmitido em vários países.

Atualmente, tem regido, como convidado, dentro e fora do país, e trabalhado em diversos projetos culturais. Júlio Medaglia é constantemente convidado para ministrar palestras em todo o Brasil. É ensaista e colaborador dos mais importantes órgãos de imprensa nacionais. Tem livros publicados como tradutor e autor ("Música Impopular", já na segunda edição, "Música, Maestro!", 2009). É membro da União Brasileira de Escritores e da Academia Paulista de Letras, ocupando, nesta última, a cadeira nº 3, que pertenceu a Mário de Andrade. Tem composições, extraídas de suas trilhas sonoras para filmes, peças de teatro e TV, assim como arranjos seus, interpretados e gravados por membros da melhor orquestra do planeta, a Filarmônica de Berlim. Em agosto de 2005, estreou um novo e revolucionário programa na TV Cultura, "Prelúdio", um "show de calouros" para jovens intérpretes de música clássica! Atualmente, ocupa o cargo de Diretor Artístico do Theatro São Pedro, em São Paulo.


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