MÚSICA NA ESCOLA, URGENTE!

Não existe na face da Terra produto da criatividade humana tão presente no dia-a-dia das pessoas como a música. Já ao chegar ao mundo, antes mesmo de ouvir as primeiras canções de ninar e após receber a primeira bordoada (no bumbum) para saber que a coisa não vai ser fácil, o recém-nascido emite vários sons por suas cordas vocais. E ao morrer, acompanhado de maviosas melodias, seu corpo será tragado pelas chamas ou levado às profundezas do refúgio final. E ainda não se livrou da música. Sete dias após, sua memória será reverenciada em cerimônia religiosa... repleta de cânticos.

Com a evolução dos meios de comunicação e o conseqüente barateamento dos processos de veiculação sonora, facilitou-se sobremaneira a presença da música no cotidiano humano. No início desse processo de industrialização cultural, por volta da década de 1930, Heitor Villa-Lobos, que já desenvolvia uma carreira internacional de sucesso, resolveu voltar suas atenções para o País, sobretudo para essa relação produção-consumo em conseqüência do novo fenômeno. Com uma lucidez fora do comum, afirmava ele que, com a implantação dessa "música de repetição", se o brasileiro não estivesse preparado, poderia tornar-se refém da máquina da comunicação - esta seguramente mais preocupada com o sucesso de seus negócios que com a possível qualidade artística ou importância cultural do objeto criado e comercializado. Realizando uma experiência inicial no Estado de São Paulo a convite do interventor João Alberto, Villa iniciou a elaboração de uma metodologia de ensino musical para jovens que iria culminar com a implantação do Canto Orfeônico no currículo escolar e a criação do Conservatório Nacional para a formação de professores. O uso da voz, segundo ele, seria a forma mais prática de levar a informação musical inteligente ao jovem de todo o País. Para tal criou o Guia Prático, com 137 canções harmonizadas e instrumentadas, dois volumes do Canto Orfeônico e dois de Solfejos. É bom que se diga que a matéria-prima desses compêndios era o folclore nacional, cuja riqueza rítmica e melódica constitui a base de nossa melhor música popular e erudita. Com ele as pessoas se identificavam, ocorrendo, ao mesmo tempo, um intercâmbio cultural nacional por meio das canções.

Coincidência ou não, a música que se ouvia no Brasil naquele meado de século 20 era de excelente qualidade. O folclore era prestigiado pela intelligentsia e não sofria massacre da mídia eletrônica. O músico instrumentista de formação tocava em sinfônicas e também nas orquestras de rádio e gravação, o que lhe permitia atuação de qualidade e satisfatória situação financeira. Nas rádios, que eram os grandes veículos da cultura de massa, ouvia-se competente dramaturgia popular emoldurada por uma sonoplastia feita exclusivamente com música clássica, quase sempre com autores da vanguarda do século 20. E, se os cantores do rádio nos ofereciam preciosas e ingênuas crônicas de costumes, o mais belo e poético retrato da alma brasileira, tínhamos também o virtuosismo de instrumentistas como Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, Dilermando Reis, Carolina Cardoso de Meneses, Baden Powell, Pixinguinha, Tiamélia, Benedito Lacerda, Severino Araújo e tantos outros que, tecnicamente, nada deviam aos grandes solistas das salas de concertos. Isso para não falar das grandes vozes, sempre envoltas em refinadas orquestrações. Basta ouvir a remasterização das gravações de Orlando Silva feitas na década de 30. Tem-se a impressão de se tratar de Dietrich Fischer-Dieskau interpretando Lieders de Schubert...

Se na sala de aula o jovem disciplinava sua mente por meio do canto codificado, recebendo, ao mesmo tempo, informações da música de alto repertório, o trabalho de nossos grandes mestres não lhes era inteiramente estranho. No momento em que Radamés Gnattali tinha seu concerto para piano tocado em Chicago, Filadélfia e Washington e suas obras apresentadas pela Sinfônica da BBC, Cláudio Santoro ganhava um prêmio de música de câmera em Nova York e tinha sua Terceira Sinfonia executada pela Sinfônica de Boston; quando Hekel Tavares via seu concerto para piano estreado pela Filarmônica de Londres com Felicia Blumenthal e Guerra Peixe fazia o maior furor em Zurique com seu Noneto vanguardista, regido por um dos maiores maestros de todos os tempos, Hermann Scherchen, eles, esses grandes músicos nossos, não estavam no Copacabana Palace bebendo champanhe para comemorar seus sucessos internacionais, e sim trancafiados em pequenas "salas de arranjadores" das rádios, fazendo orquestrações, compondo vinhetas e sonoplastias para os mais diversos programas. Ou seja, nossa elite musical prestava serviço direto e diário à cultura popular. Eram bem aceitos e bem pagos, deixando claro que o povão gosta do "caviar sonoro" e não é tão imbecil como imaginam os atuais condutores de nossas grandes máquinas de produção musical.

Em 1972, no governo Médici, momento mais repressivo da ditadura, tendo como ministro da Educação e Cultura o coronel Jarbas Passarinho, a música foi afastada do banco escolar. Esse fato coincidiu com o início da derradeira fase da industrialização dos meios de massa eletrônicos. Acelerando sobremaneira os processos de produção e consumo, os grandes conglomerados, não tendo paciência nem sabendo lidar com a fragilidade do talento humano, resolveram tirar da mão do criador o privilégio da criação, preferindo eles próprios, reunidos em escritórios com ar-condicionado em grandes centros empresariais, criar seus próprios "frankensteins" sonoros e lançá-los, como um trator, sobre a sensibilidade popular. Esse processo devastador permanece ainda hoje, como se constata sintonizando qualquer grande veículo de comunicação. A grande força e persistência da mídia acaba impondo um duvidoso gosto musical aos ouvintes, principalmente à juventude, que, sem outra opção ou direcionamento, termina por adotar um padrão de cultura musical dos mais pobres.

Durante uma década, a atual Lei de Diretrizes e Bases do Ensino (LDB) foi discutida em Brasília e excluía a Educação Artística. Cheguei a fazer viagens à capital e até pronunciamentos nas comissões do Congresso, enfrentando irados lobbistas e deputados que representavam escolas particulares que não queriam a matéria no novo texto para não terem de aumentar seus encargos. Quando a lei estava para ser aprovada, entrei em contato com o relator, o deputado José Jorge. Como ele já havia sido secretário de Cultura em Pernambuco, e sensível, portanto, à problemática, enviei-lhe artigos meus sobre o assunto e tive o prazer de receber um telefonema seu em que me relatava um fato curioso. Disse-me que já estava praticamente com a "cabeça feita" para defender a arte-educação na nova lei, mas um acontecimento o tinha incentivado ainda mais nesse sentido. Na noite anterior à votação ele havia visto um desses filminhos de fim de noite na TV, no qual alunos de uma "high school" americana, após assistirem à aula de música, pegavam seus instrumentos, formavam uma banda e saíam tocando pelas ruas da cidade. A cena o emocionou de tal forma que ele não teve mais dúvidas em assumir a causa.

O projeto de ensino que havia sido aprovado no Senado, de autoria de Darcy Ribeiro, (inexplicavelmente) não incluía a Educação Artística. Solicitou-se, então, o artigo sobre arte-educação de um texto já aprovado anteriormente na Câmara dos Deputados, o qual foi incluído na LDB e aprovado. Lei 9.394, de 20/12/96, artigo 26: "O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos."

Essa preciosa frase nunca foi tão importante como no momento atual, quando se presencia em nosso país um verdadeiro massacre cultural via satélite, como previa Villa-Lobos. Como não é possível censurar a imbecilidade nem intervir nos mecanismos produtores de cultura de massa, só resta ao Estado usar as leis para fazer chegar ao banco escolar, às novas gerações, a informação inteligente e ampla. E aqui, como a música exerce um papel de liderança, pelo menos quantitativa, nesse processo de consumo cultural, o que se espera é que seu ensino seja desatrelado da chamada arte-educação.

Aliás, como ocorre em todos os países do mundo civilizado. Cabe ao Executivo editar uma medida provisória definindo como prioritário e obrigatório o ensino da música no currículo escolar básico e médio, cabendo ao Congresso discutir e aprovar essa alteração na lei. Em não havendo essa discussão, depois de certo tempo essa medida ganharia força de lei. Em pouco tempo um grupo competente de pedagogos e músicos poderia criar um currículo compacto e prático, que faria uso, inclusive, dos recursos modernos da tecnologia. Com ele, músicos se transformariam rapidamente em pedagogos de primeira hora em todo o País.

Esse é o desejo de grande parte daqueles que se preocupam com a movimentação cultural no Brasil, e todos acham que isso deva ocorrer com grande urgência, antes que nossa tão rica e criativa expressão musical seja inteiramente devastada.

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